Carta da ex-professora da escola em realengo

Revista Época – 11-04-2011 – Cara Ruth – Escrevo a você num desabafo. Sou professora de Língua Portuguesa e, em 1995, fiquei cedida, durante quase um ano, à Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo.

Há um nó em minha garganta e, desde que soube do ocorrido, tenho me emocionado inúmeras vezes.

È muito difícil organizar as ideias no pensamento quando essas não fazem sentido…

A fragilidade de nossas escolas tem proporcionado cenas lamentáveis diariamente.

É claro que a tragédia da semana passada não pode servir como parâmetro de comparação, mas vemos, no dia a dia, cenas de violência com as quais temos de lidar, ainda que sem preparo, e a mídia sequer fica sabendo.

São alunos que se agridem física e verbalmente, muitas vezes, por motivos extremamente banais; alunos que desacatam professores e funcionários  com palavras de baixo calão; pais e responsáveis que entram nas escolas e agridem professores que, supostamente, teriam algum “problema” aos seus filhos…

PS – Agradeço a sua atenção. Fico satisfeita em saber que, de alguma forma, minhas angústias (que são as mesmas de muitos professores) serão ouvidas (lidas). Gostaria muito de poder revelar-me e dizer também o nome da escola onde trabalho, mas, infelizmente, a Secretaria Municipal de Educação não admite críticas feitas pelos seus funcionários e, temendo algum tipo de represália, somos obrigados a omitir muitas coisas. Pode, sim, publicar o meu depoimento em seu blog, desde que meu nome não apareça. Use um pseudônimo ou apenas a inicial do meu primeiro nome.

A mim, a professora se identificou com nome e sobrenome, mas naturalmente respeito seu desejo de se proteger. As palavras com maiúsculas são de seu original. Recebo esse desabafo com tristeza, não com perplexidade. Antigamente, ser professor ou ter um professor na família era motivo de orgulho e alegria. Hoje, é motivo de preocupação. Um professor de escola pública (e de algumas particulares) é obrigado a lecionar em diversos locais para ter uma remuneração decente. Além disso, é às vezes agredido verbal e fisicamente por alunos e pais de alunos. Na Escola Tasso da Silveira, em Realengo, um professor foi um pouco herói, acalmando as crianças e trancando a porta da sala, praticamente colocando-se na mira do atirador. (Além, claro, de outro salvador decisivo: o sargento que impediu uma carnificina ainda maior). Nesse post, minha homenagem aos professores que enfrentam tantas adversidades e acreditam em sua profissão. E meu desejo de que os governos enfim passem da retórica à ação e tornem a educação a prioridade máxima no Brasil.

Meu comentário: Após o massacre na escola municipal Tasso da Silveira, no Rio, na quinta-feira (7), a presidente Dilma Rousseff decretou luto oficial por três dias pelos brasileirinhos mortos.

E chorou.

O que exatamente arrancou as lágrimas da maior mandatária do País? Talvez, pela prepotência e pela falta de sensibilidade de seus antecessores que jamais souberam – ou quiseram – investir na educação.

Por saber que além de cadernos, livros e mochilas, as escolas são depósitos de drogas, de armas e que, há muito, se tornou o império do álcool e do bullying?

Pelas famílias que por toda a vida chorarão uma perda irreparável?

Por que não há uma política educacional que garanta segurança à escola e uma carreira digna aos professores? Pela dor profunda, pela vergonha coletiva que se alastrou pelo Brasil?

Todas as razões irrefutáveis, é certo. Por isso, a presidente chorou. Todos nós choramos, por dentro e por fora. Se nada for feito, estes alunos mortos não passarão de mais uma estatística fria. Uma lembrança, apenas uma saudade.

Quem sabe a tragédia do Realengo possa mover a equipe do governo Dilma a arregaçar as mangas e partir para a ação contra a violência escolar.

 

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