FERNANDO HADDAD: “O INEP ESTÁ ISENTO DE RESPONSABILIDADE”

Fonte: Revista Época 01/11/2010
Fernando Haddad: “O Inep está isento de responsabilidade”

O ministro da Educação minimiza os erros cometidos na aplicação do Enem e diz que o exame deste ano foi “bem melhor”
Ana Aranha e Marcelo Rocha. Com Camila Guimarães, Murilo Ramos e Nelito Fernandes

Anderson Schneider
ÉPOCA – Onde o ministério errou?
Fernando Haddad –
A questão mais complexa foi assumida pela gráfica contratada pelo Inep (órgão do ministério, responsável pelo exame). Assumiu inclusive os custos de reaplicação para os alunos que não conseguiram trocar o caderno em que havia o erro de impressão. Erro que havia condições de solução na maioria dos casos, pois havia 10% de provas de reserva. Desse ponto de vista, o Inep está absolutamente isento de qualquer responsabilidade.

 

ÉPOCA – Todas as folhas de respostas saíram com erro de responsabilidade do Inep. Como a instituição que pretende unificar os vestibulares comete um erro tão primário?
Haddad – Houve, de fato, da parte de um funcionário do Inep, o comando que nós chamamos de “imprima-se” para que as folhas fossem impressas daquela maneira. Mas, a partir das 13 horas, todos os fiscais de sala foram alertados pelos coordenadores nos locais sobre qual era o procedimento a seguir, ou seja, orientar os alunos a responder na ordem numérica. A questão 1 no item 1, e assim por adiante.

 

ÉPOCA – Alguns deram a ordem inversa.
Haddad – Isso vai ser resolvido a partir do momento em que a Justiça liberar o portal no qual o aluno vai informar essa ocorrência. A prova vai ser corrigida da forma como ele preencheu.

 

ÉPOCA – Há fiscais que deram uma informação e depois deram outra. Os alunos prejudicados não têm direito de refazer a prova?
Haddad – Se constar da ata de sala de aula, sim. Em casos de má orientação, ou desorientação do fiscal, o que, em nossa opinião, ocorreu muito pouco. O fiscal tinha reserva de 10% das folhas de respostas para esse fim.

 

ÉPOCA – Apuramos casos em que isso aconteceu, mas o fiscal não deu outra folha nem anotou o fato. Como ficam esses alunos?
Haddad – Aí nós vamos ter de apurar porque, se ele está dizendo que não está na ata, nós teremos de encontrar eventualmente outros caminhos de apuração.

 

ÉPOCA – O presidente do Inep veio do Cespe (empresa contratada para aplicar o Enem). Não há conflito de interesses no controle?
Haddad – O Cespe é uma repartição pública. Ele era um servidor público do Cespe e continua sendo servidor público no Inep.

 

ÉPOCA – Uma de suas funções é fiscalizar o órgão que presidia em 2009.
Haddad –
O Cespe e a Cesgranrio não cometeram nenhuma falha no processo.

 

ÉPOCA – A coordenação dos fiscais, que orientou os alunos de maneira equivocada, era de responsabilidade do Cespe.
Haddad – Esses são casos isolados e estão sendo apurados nesse sentido. 

ÉPOCA – Se o erro do cabeçalho estava na matriz da folha de respostas, houve falha de gerenciamento, não?
Haddad – Não. Foi um problema da matriz, mas a última palavra é de quem deu o comando de imprimir. Obviamente que passa por várias revisões, mas existe a autoridade que dá o comando final.
ÉPOCA – O Inep não vai abrir sindicância para investigar esse erro?
Haddad – Eu tenho a impressão de que está abrindo, está tomando as providências. Aliás, faço referência à maneira transparente com que o Inep procedeu no ano passado, levando às últimas consequências a investigação sobre o episódio do ano anterior.
ÉPOCA – O presidente Lula disse que, se preciso, a prova será reaplicada. Como será possível fazer isso sem atrasar o calendário das universidades?
Haddad –
A afirmação do presidente, e isso eu confirmei, faz referência ao apoio que ele dá ao Enem como forma de democratização do acesso à educação superior. O que ele quis dizer é que apoia essa forma de ingresso porque é a mais democrática.
ÉPOCA – Como garantir que os erros não se repitam no próximo ano?
Haddad – O Enem foi bem melhor de todos os pontos de vista em relação a 2009. Tanto em relação à logística de segurança, à distribuição, à chegada dos malotes, ao cronograma estabelecido, à qualidade da prova. É um processo contínuo de aperfeiçoamento. Até nos Estados Unidos, que inauguraram esse processo de avaliação e seleção de alunos pelo SAT, houve, em 2005, 4 mil alunos prejudicados.
ÉPOCA – O que o senhor tem a dizer aos 3,4 milhões de alunos que fizeram a prova?
Haddad –
Confio na celeridade da Justiça em manter a prova, com a reaplicação para a parcela de estudantes prejudicados e a divulgação no prazo acordado.

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