LIÇÃO DE EXCELÊNCIA NA CRECHE

Fonte: Revista Veja – 3/11/2010 – pág.130 – A experiência da professora mineira Sílvia de Jesus mostra que incentivar o aprendizado desde muito cedo pode surtir bons resultados.

A trajetória da mineira Sílvia Ulisses de Jesus, 45 anos, é singular na educação brasileira. Por incentivo dos pais, um casal de agricultores que se mudou para a capital em busca de um bom ensino para os oito filhos, ela jamais cogitou outra profissão na vida senão a de professora. Dedica-se ao ofício há duas décadas. Dois anos atrás, depois de lecionar em diversas escolas e arranjar emprego numa universidade particular, Sílvia causou espanto aos colegas quando avisou que daria aulas numa pequena pré-escola municipal. Entre as primeiras colocadas no concurso público que prestou, tinha a primazia de escolher qualquer colégio da rede. Acabou optando pela mesma escola em que estudou na infância, vizinha a uma favela de Belo Horizonte. “Tacharam-me de louca. Ensinar crianças tão pequenas num lugar pobre como esse não dá dinheiro nem status no Brasil”, ela reconhece, mas pondera, com raríssimo entusiasmo: “Nada me realiza mais”. Pois, desde então, Sílvia vem executando um trabalho exemplar, baseado numa vasta pesquisa sobre a experiência internacional. Em suas aulas, ela apresenta cores e formas em pinturas de Salvador Dalí, ensina ritmos fazendo uso dos mais variados instrumentos, lê contos de fadas. “A ideia é prover a criança de bons estímulos no lugar de deixá-la inerte – uma prática muito comum na pré-escola brasileira”, diz.

Tal é o resultado positivo de suas aulas que Sílvia foi convidada a disseminar a experiência pelas demais pré-escolas de Belo Horizonte. Na semana passada, o trabalho lhe rendeu o Prêmio Educador Nota 10, concedido pela Fundação Victor Civita, desde 1998, a dez professores que se distinguem pela excelência – grupo do qual ela foi o destaque. O impulso que conseguiu dar a um grupo de crianças na primeria fase de seu desenvolvimento cognitivo faz refletir sobre a relevância dos estímulos providos desde muito cedo. Não raro, são seus alunos que apresentam certas histórias e músicas aos pais. A salvo dos exageros que constumam permear o debate, a ciência já concluiu que, sim, certos incentivos a crianças pequenas podem ser decisivos. Resume o economista americano James Heckman, prêmio Nobel de Economia e autor do mais abrangente estudo já feito na área: “Não é exagero dizer que, quanto antes  os incentivos ao aprendizado vierem, mais chance a criança terá de se tornar um adulto bem preparado”.

O trabalho de Heckman, reforçado por dezenas de outros que se seguiram, sinaliza para os estímulos que fazem mais diferença – aqueles que ajudam na aquisição e no desenvolvimento da linguagem. É espantosa a distância que separa os que foram incentivados nesse sentido, até os 5 anos de idade, daqueles que não tiveram a mesma experiência. Para se ter uma ideia, crianças que crescem cercadas de estímulos cognitivos na primeira infância chegam aos 8 anos dominado, em média, 12 000 palavras (o triplo do vocabulário daquelas que não têm a mesma base). E a tendência é que essa diferença só aumente, desencadeando um ciclo vicioso. Explica o especialista João Batista de Oliveria: “Quando as crianças absorvem um repertório limitado de palavras, elas enfrentam dificuldade para depreender o significado de frases e ideias e têm, com isso, uma séria barreira para expandir o conhecimento”. Os incentivos à apreensão da linguagem são tão simples quanto eficazes, segundo enfatiza a literatura sobre o assunto – e a própria experiência da professora mineira. “Tudo o que faço na sala de aula diz respeito a aguçar a sede por conhecimento das crianças”, sintetiza.

Crianças vindas de famílias com renda e escolaridade mais elevadas tendem a ser supridas desses estímulos em casa – mas as outras, não. Daí ser preocupante o fato de sete em cada dez crianças brasileiras de até 5 anos, a maioria delas egressa da pobreza, estarem fora da escola. Longe da sala de aula e sem grandes incentivos ao aprendizado por parte dos pais, elas têm suas chances de avançar limitadas logo de saída. Foi a percepção disso que levou a professora Sílvia de Jesus a lecionar na vizinhança pobre de onde, à custa de muito esforço e pondo à prova a lei das probabilidades, foi alçada ao ensino superior, junto com os irmãos. Dos oito, seis, são professores. No Brasil, é praticamente impossível encontrar gente tão gabaritada como ela no ensino infantil. Sílvia, que nunca se casou nem teve filhos, ganha 850 reais por mês. Assim como os colegas, completa a renda dando aula numa escola particular e ainda numa pequena faculdade, na qual ajuda a formar professores para o ensino básico. Ali, sua amostra de alunos reflete algo que se estende à realidade brasileira. “Ninguém quer dar aula na pré-escola”, lamenta. Tornar esse ofício atraente no Brasil é crucial para dar o primeiro e necessário impulso para que, no futuro, essa nova geração tenha mais chance de prosperar.

 

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