ESTRESSE NA ESCOLA

Editorial – Folha de São Paulo – 17/10/2010 – pág.A/2 – Excesso de licenças médicas para docentes é sinal de que se deterioram as relações em sala de aula; governo e pais não podem se omitir

A última sexta-feira, Dia do Professor, não foi data para muita comemoração. A educação no Brasil vai mal, já se aprendeu. Mas nem todos sabem, ou querem saber, que os docentes também participam dessa tragédia nacional como vítimas.

Não são apenas os baixos salários. Há indícios de que esteja adquirindo proporções epidêmicas o fenômeno da indisciplina e da violência em salas de aula, com maior gravidade em escolas da rede pública. È patente a necessidade de providências, mas ninguém – poder público, sindicatos, pais ou educadores – sabe ao certo como reagir.

A deterioração dos relacionamentos em classe tem como sintoma mais visível o estresse dos professores – alguns deles submetidos a situações extremas, como ameaças de morte.

Por mais que se imagine a ocorrência de abusos na concessão de licenças médicas por problemas emocionais, os números chamam a atenção. De janeiro a julho deste ano elas chegaram a 19.500 na rede estadual de São Paulo.

A cifra corresponde a 92 afastamentos por dia. Mesmo ponderado como percentual do conjunto de mestres da rede estadual (220 mil), o índice é alto: 8,9% do corpo docente afastado ao longo de sete meses. Pior: a cifra desse período de 2010 representa 70% do total de casos do ano anterior, o que sugere uma aceleração do problema.

O governo estadual precisa fazer algo a respeito, mas o alcance de sua ação é limitado. Seria um bom começo melhorar as condições gerais de trabalho, aprofundando as políticas de reduzir a um mínimo as vagas de professor temporário e de valorizar a função, por meio de aumentos na remuneração básica ou de prêmios por desempenho e requalificação.

No que toca ao problema específico da violência, aberta ou relada, o Estado pode pouco. já se assinalou, neste espaço, a necessidade de rever gradação, condições e limites das punições aplicáveis a estudantes, além de serviços especializados de assistência ao professor. Cabe reconhcer, no entanto, que o alcance de tais medidas será sempre restrito.

O fenômeno não é só da rede pública, nem exclusivamente paulista, muito menos brasileiro. Por toda parte emergem conflitos entre os muros da escola, mesmo em países ricos, quase sempre em áreas onde algum tipo de iniquidade ou exclusão se torna a regra – como nos subúrbios europeus com predomínio de minorias oriundas de antigas colônias.

Não contribui para melhorar esse quadro a transformação em cliclês de conceitos pedagógicos avessos a reprimir ou cobrar desempenho de jovens estudantes. É preocupante também que as famílias tenham se tornado tão disfuncionais. Muitos pais parecem encarar a escola e o professor como responsáveis pela boa educação dos filhos, no sentido tradicional da expressão, que compreende o aprendizado de regras básicas de convívio social.

Já se tornou lugar comum dizer que, sem o envolvimento dos pais, nenhuma escola tem futuro. Antes de participar da vida escolar, contudo, cabe a eles assumir uma responsabilidade mais primária, que é garantir que os próprios filhos reúnam condições de fazê-lo.

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