EDUCAÇÃO DE QUALIDADE: DE VOLTA AO FUTURO

Artigo de Gustavo Ioschpe – Revista Veja – 13-10-2010-pág.100 – “A presença de computadores nas escolas não tem nenhum impacto sobre o aprendizado. Os fatores mais importantes para a qualidade da educação são – e serão pelo futuro previsível – seus atores principais: professores e alunos. Precisamos volta a ter uma educação de qualidade, mas a boa escola brasileira não pode ser copiada de nosso passado, nem de outros países. O sistema de educação de um país é produto histórico de sua cultura e projeto de nação”.

Quando se fala no mau estado da educação pública do Brasil, muitas das lideranças políticas e cidadãos bem-intencionados sugerem que o caminho para o futuro é o resgate do passado, quando as escolas públicas eram referenciais de excelência. Infelizmente essa não é uma opção. Não pela razão comumente apontada, a tecnologia. Ouvindo-se alguns dos teóricos da educação atual, é de pensar que o cérebro humano, moldado em milhões de anos de evolução, sofreu uma metamorfose causada pelo uso, de alguns anos, de internet, videogames e assemelhados, capaz de tornar toda a metodologia pedagógica exitosa dos últimos séculos em algo ultrapassado e condenado ao esquecimento. Curiosamente, as pesquisas empíricas não só não indicam essa relação de indispensabilidade da tecnologia para a escola atual, como mostram que a presença de computadores nas escolas não tem nenhum impacto sobre o aprendizado.

Os fatores mais importantes para a qualidade da educação são – e serão pelo futuro previsível – seus atores principais: professores e alunos. E o perfil do alunado e do magistério de 2010 e das próximas décadas é bastante diferente daquele que povoava nossas escolas em meados do século XX.

Em 1950, quando meu pai frequentava uma escola pública, havia 5 milhões de alunos no atual ensino fundamental, contra 31 milhões hoje. A taxa de matrícula, naquela época, era de 48%. Hoje, beira os 100%. No equivalente ao atual ensino médio, então, nem se fale: segundo o IBGE, eram 390 000 alunos em 1950, representando taxa de matrícula de 8,8%. Atualmente, são quase 10 milhões de alunos. Apesar de aquela escola ser pública e gratuita, era uma escola para poucos. Aqueles que chegavam aos últimos anos do ensino básico tendiam a ser filhos de famílias de bom nível social e cultural. A pesquisa demonstra, cabalmente, que o fator mais importante na previsão do desempenho acadêmico de um aluno é o nível educacional e cultural de seus pais, de forma que um sistema escolar ocupado pela fatia superior da população tem tarefa bem mais fácil do que uma rede massificada que atende um grande número de alunos de famílias com grandes déficits de renda e instrução.

Esses alunos ainda contavam com outra vantagem: professores – especialmente professoras – excepcionalmente bons. Esse é um dado curioso que emerge de alguns estudos sobre a carreira docente nos EUA e que muito provavelmente se aplica ao Brasil: o machismo foi um grande aliado do ensino de qualidade. No período pré-revolução sexual, havia pouquíssimas carreiras que uma mulher de bom status social e nível intelectual podia trilhar, e ser professora era a principal delas. No mundo em que (felizmente, diga-se) o feminismo fez grande avanços, mulheres que na geração de suas mães estariam condenadas a optar entre a vida doméstica e a carreira de professora hoje podem ser médicas, advogadas, jornalistas etc. A não ser que tenhamos um inimaginável retrocesso social, esse é um progresso que não será perdido. O que é ótimo para a sociedade como um tudo, mas ruim para os nossos alunos, que perdem as professoras mais qualificadas. Já seria difícil manter o nível do professorado em um cenário de crescimento agressivo das matrículas (e, consequentemente, do número de professores e professoras empregados), mas a tarefa é ainda mais complicada quando se tem de conviver com a liberação sexual daquelas que tradicionalmente ocupam as funções do magistério (até hoje, 82% do professorado da educação básica é formado por mulheres).

A segunda mudança importante no professorado americano, que contribuiu ainda mais para a deterioração da qualidade do ensino daquele país, foi a crescente sindicalização da categoria. Sindicatos mais fortes obtêm uma série de vantagens para seus membros, e a pesquisa em educação vem demonstrando que muitas dessas vantagens aos professores são inócuas ou até maléficas para os alunos. Sindicatos mais poderosos pressionam para que o grosso da verba de educação seja gasto em aumentos salariais e diminuição do número de alunos em sala de aula, duas variáveis que não têm relação com a qualidade do ensino. Também pressionam para que os professores trabalhem menos horas por dia e tenham mais férias, para que possam faltar mais e para que seus membros não precisem ser avaliados ou prestar contas – todas variáveis negativas para o ensino. No caso americano, o efeito mais pernicioso dos sindicatos foi a imposição de salários unificados para toda a categoria, o que desmotiva os mais ambiciosos a entrar na carreira. Infelizmente não há estudos do gênero para o Brasil, mas, dada a semelhança da carreira docente e do papel dos sindicatos em ambos os países, imagino que aqui tenhamos fenômeno parecido.

O tempo em que a escola pública brasileira era de boa qualidade, portanto, não é reproduzível atualmente. Jamais teremos novamente uma rede pública de ensino em que professores e alunos eram poucos e de nível intelectual acima da média, de classe social e interesses parecidos, em que professoras viam sua atividade como um sacerdócio e não uma carreira. Para voltarmos a esse cenário, precisaríamos voltar a uma sociedade machista e ainda mais elitista do que já é. Não é possível, nem desejável. Precisamos voltar a ter uma educação de grande qualidade, mas a boa escola brasileira do futuro não pode ser copiada de nosso passado. Tampouco pode ser copiada de outros países como receita pronta, pois o sistema de educação de um país – especialmente os de excelência – são elementos endógenos de uma sociedade, produtos históricos de sua cultura e projetos de nação. Teremos de caminhar com nossas próprias pernas, levando em consideração a realidade de alunos e professores que temos em nosso país. Assim como é tacanho culpar a pobreza de nossos salunos pelo fracasso de nossas escolas, também sempre achei canhestro sugerir que precisamos revolucionar a carreira do professor, atraindo um novo (e melhor) público para a área. Podemos fazer muito mais com o que temos. Não há aluno que não possa aprender. E não há professor que não possa ensinar.

Com bem diz o ex-premiê espanhol Felipe González: outro mundo é possível, mas este é manifestante melhorável. Nos próximos meses, dedicaremos este espaço a como chegar lá.

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