5 DE OUTUBRO – DIA MUNDIAL DA EDUCAÇÃO

A agricultura é uma profissão de fé. Fé, não no sentido de frequentar igreja, nem de ficar parado, esperando que
Deus lhe conceda os seus desejos. Fé em sua acepção mais profunda, de acreditar e fazer a sua parte, mesmo sem a garantia do final desejado, mesmo sem enxergar aquilo que se quer alcançar. Fé como uma mescla de certeza, determinação, esperança e entrega ao processo, independentemente dos resultados.

O segredo do agricultor é a sua fé. Não há qualquer garantia quanto à colheita, mas ele planta mesmo assim. Ano após ano, movido pela fé, ele prepara a terra, seleciona as sementes, espalha-as criteriosamente e passa a cuidar de sua plantação.

Na realidade, durante algum tempo, quem olhar para o terreno, nada verá, exceto o solo revolvido, pequenos montes de terra e uma aparência desértica. O agricultor, entretanto, sabe que aquela cena aparentemente caótica oculta poderosos processos de transformação. Silenciosamente, as sementes começam a interagir com o solo, a água e o calor do Sol. Lentamente, uma nova vida tem início. Tudo isso é invisível para quem mira a terra, mas o agricultor mantém-se inabalável em sua fé. Sem se importar com o que as aparências ou com que pode ser visto na superfície, ele cuida do terreno diariamente, incansavelmente. Esparge água na medida certa. Arranca as ervas daninhas. Afugenta os animais que podem atacar a plantação. Protege-a das intempéries da natureza. Vigia para que pragas não se disseminem. Aduba o solo.

Mesmo sem a garantia da colheita, o agricultor acredita tanto que continua a fazer tudo o que é necessário e tudo o que estiver ao seu alcance, para que o máximo de sementes possa brotar, se desenvolver e frutificar. Ele tem consciência de que há fatores críticos que se encontram totalmente fora de seu controle – a seca, a enchente, o vendaval, as pestes e variações bruscas de temperatura… Essa consciência, ao invés de desmotivá-lo, torna-o mais humilde e, ao mesmo tempo, obstinado em fazer a sua parte, no melhor de suas possibilidades.

Desse modo, se as condições climáticas forem favoráveis, ele terá uma superprodução. Se forem razoáveis, ele conseguirá, ao menos, recuperar o seu investimento. Se o clima for desfavorável… bem, o agricultor sabe que essa possibilidade existe e já a sofreu várias vezes, mas ele opta por não incluí-la em suas previsões, pois, se o fizesse, desistiria de seu ofício. E o restante da sociedade passaria fome.

Há vários tipos de agricultor.
Dentre eles, um se destaca pela preciosidade das sementes que planta e pelo tempo que elas levam para brotar e frutificar. Essas características do seu cultivo exigem desse tipo de agricultor as mais altas doses de paciência e perseverança. Paciência, muita paciência. Perseverança, muita perseverança. Paciência e perseverança combinadas. Isso sem falar da fé inabalável e da dedicação incansável.

Trata-se do Educador. Seus campos de cultivo são os Corações e as Mentes dos educandos – terrenos férteis, mas cujo preparo e manutenção exigem grande esforço. As sementes que planta são o bom exemplo, a sabedoria e o encorajamento. A água que esparge é a sua palavra, portadora não só de conhecimento, mas também de sentimentos construtivos. O afeto que irradia através de seu olhar, gestos, posturas, do que diz e do que silencia, constitui a luz e o calor que energiza o solo.

Alguns agricultores precisam trabalhar durante semanas, talvez meses, até que chegue o momento da colheita. Já ao Professor, não é dado ver os frutos de seu trabalho. São raras as oportunidades em que ele próprio testemunha o desabrochar dos educandos ou a frutificação de seus ensinamentos, pois as sementes que semeia levam dez, quinze, vinte anos para dar frutos.

Outra característica que distingue o Educador dos demais agricultores: ele planta, mas não lhe cabe colher. Quem colhe é o próprio educando, a sua família e a sociedade como um todo. Por essa razão, o ofício de Educador caracteriza-se pela abnegação. Não qualquer abnegação, mas a legítima, que implica em abnegação de si mesmo, abnegação dos desejos de popularidade e reconhecimento, abnegação dos resultados imediatos de seu trabalho, abnegação da busca por “soluções mágicas”, “atalhos milagrosos” ou “respostas fáceis” aos desafios que enfrenta.

Se o Educador não tivesse tal abnegação, exigiria “garantias prévias” quanto ao resultado de seus esforços, cobraria a possibilidade de participar dos benefícios da colheita. Ninguém pode lhe dar a certeza de que os ensinamentos que semeia encontrarão acolhida entre os educandos, que suas qualidades como educador serão reconhecidas ou valorizadas, que sua dedicação ao ensino será recompensada pelo aprendizado dos estudantes. Este ofício exige, por sua própria natureza, total concentração no processo e sincero desprendimento dos resultados. Em outras palavras, exige entrega.

*Feizi Milani é conferencista e professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB).

SECOM/CPP

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