ENSINO EM RECUPERAÇÃO

Revista Época -5-07-2010-pág.44/45 – O rendimento dos alunos em leitura e matemática melhorou, mas só agora retomou o nível dos anos 90

A maioria dos alunos que se formaram no ensino médio em 2009 não será capaz de entender essa reportagem – uma habilidade que eles deveriam ter aprendido na 8a série do ensino fundamental. Esse é um dos dados que se inferem do novo Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), mais importante indicador da qualidade do ensino no Brasil, divulgado na semana passada. Ele mostra que, nos próximos anos, a maior parte das escolas públicas deverá continuar colocando no mercado de trabalho jovens despreparados. Apesar desse desempenho dos formandos de ensino médio, o Ministério da Educação comemorou os resultados, porque eles apontaram uma melhoria do rendimento dos alunos das séries iniciais.

O Ideb é calculado a partir da combinação das notas obtidas pelos alunos das escolas públicas em leitura e matemática com os índices de aprovação. Os novos resultados mostraram que as notas dos alunos de 4a série em 2009 aumentaram em relação a 2007. Se esse crescimento seguir o ritmo atual, a educação brasileira poderá sair do vermelho na próxima década e cumprir as metas traçadas pelo Ministério da Educação. O objetivo é que, em 2021, os alunos de 4a série tenham rendimento equivalente ao dos estudantes de países desenvolvidos no mesmo estágio escolar.

Os alunos da 4a série de 2009 pontuaram 7% a mais em língua portuguesa do que os estudantes que estavam nessa mesma série em 2005. Em matemática, a nota subiu 12%. Os alunos da 8a série de 2009 também melhoraram tanto em leitura como em matemática. Segundo mostrou o Ideb, essa evolução se deve a um fator principal: as escolas públicas, na faixa de 1a a 4a série, a primeira etapa do ensino fundamental, melhoraram. Os alunos passaram a chegar à 5a série mais bem preparados que as gerações anteriores.

Para Ocimar Munhoz Alavarse, educador da Universidade de São Paulo (USP), as escolas de 1a a 4a série tendem a melhorar mais rapidamente do que as que atendem os alunos das séries mais avançadas. Uma das razões é que os alunos das séries iniciais não carregam problemas de defasagem de ensino ao entrar na escola. Outra razão é que as escolas de 1a a 4a série, em sua maioria, são municipais. Entre 5a e 8a série, a maior parte das escolas é estadual. “O município gere menor quantidade de escolas, o que favorece o impacto de mudanças”, afirma Munhoz. “Além disso, o governo federal lançou uma ofensiva para pressionar os prefeitos a repensar sua política de educação”. Desde 2007, o Ministério da Educação passou a condicionar os repasses voluntários de verbas aos municípios à existência de planos de melhoria do ensino. A partir de então, as verbas federais vão prioritariamente para ações previstas nesses planos.

Mesmo com a melhoria constatada pelo Ideb, o desempenho atual dos alunos em leitura e matemática apenas se aproxima do que era em 1995, o primeiro ano em que avaliações de grande escala foram realizadas no Brasil. Naquele ano, a qualidade da educação estava despencando. A queda durou até 2001 e é atribuída às consequências da universalização do ensino fundamental. No início dos anos 90, a rede pública passou a atender maior quantidade de alunos, mas não recebeu investimentos proporcionais ao aumento da demanda. Outra razão para a queda da qualidade foram as políticas para diminuir a grande quantidade de alunos em séries inadequadas, devido aos altos índices de repetência. “Havia muitos alunos atrasados, o que inchava algumas séries e dificultava o funcionamento da escola”, afirma o matemático Ruben Klein, da fundação Cesgranrio. “Para corrigir isso, muitas escolas empurraram os alunos para as séries adiante sem garantir aprendizado.” A partir dos anos 2000, as escolas passaram a ter menor alunos atrasados, o que também pode explicar a melhora desde então.

Apesar de o Ideb ter mostrado apenas uma recuperação em relação a 1995, os especialistas avaliaram positivamente os resultados, pois eles apontam uma tendência de cresimento da qualidade da educação pública. “Minha expectativa é que, em 2013, a geração que está saindo hoje da 4a série apresente bons resultados na 8a série”, afirma o economista Reynaldo Fernandes, ex-presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) e responsável pela criação do Ideb. “Para a 4a série continuar avançando, vai ser preciso mais esforço.” Quanto pior o desempenho dos alunos, mais fácil fica fazer mudanças de impacto para melhorar a qualidade de ensino. Mas, à medida que o rendimento melhora, a evolução nas notas também se torna mais complicada. Daqui para a frente, os avanços no ensino deverão exigir mais investimentos.

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