Fique de olho. Como melhorar nossa saúde

Revista Época -Debate da semana – 28-06-2010- página 22 – A Constituição de 1988 criou o Sistema Único de Saúde (SUS), uma importante conquista da democracia brasileira. O artigo 196, segundo o qual “a saúde é direito de todos e dever do Estado”, é um belo instrumento de inclusão social. Na prática, porém, nenhum governo conseguiu cumpri-lo integralmente. O atendimento universal e irrestrito previsto pelo SUS tornou-se uma utopia? Como atender aos anseios de todos os doentes que desejam receber os mais novos (e caros) recursos médicos? De onde deve sair o dinheiro para cobrir as demandas crescentes?

Essas foram algumas das questões discutidas na semana passada durante o Època Debate Saúde. O evento contou com a participação do secretário de Saúde do Estado de São Paulo, Luiz Roberto Barradas Barata, do ex-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e atual superintendente corporativo do Hospital Sírio-Libanês, Gonzalo Vecina Neto, e do coordenador do Centro Paulista de Economia da Saúde da Universidade Federal de São paulo (Unifesp), Marcos Bosi Ferraz.

O Época Debate é uma iniciativa da revista Época para discutir os principais temas na agenda do próximo presidente da República. O vídeo com os melhores momentos do debate sobre saúde está disponível em epoca.com.br/eleicao2010. Até outubro haverá mais três eventos, abertos à participação de leitores: educação, política externa e o papel do Estado.

Os debatedores concordaram em dois pontos. O primeiro: a saúde brasileira precisa de mais dinheiro e mais gestão. O segundo: para fazer isso não é preciso recriar a CPMF ou outro imposto semelhante. Barradas e Bosi Ferraz divergiram sobre um terceiro ponto: Barradas acredita que o SUS deve dar tudo a todos os que precisam. Bosi Ferraz disse que as dificuldades de acesso aos tratamentos são um sinal de que não é possível dar tudo a todos.

“É fundamental que o Brasil ofereça saúde para toda a população. Não pode existir um sistema para os pobres e um sistema para os ricos. Precisamos de mais dinheiro para a saúde, mas não acho que a solução seja criar mais um imposto. Sou contra a volta da CPMF. Acho que não existe ambiente para isso. A sociedade foi levada a acreditar que a CPMF era um diabo que ia acabar com as finanças brasileiras. Quero saber se alguém viu alguma redução no preço das mercadorias quando acabaram com ela. A CPMF deixou de existir, e a vida das pessoas não mudou nada”. “O negócio da indústria é vender remédio. O negócio do Estado é tratar doente, o que é muito diferente. Por que sou obrigado a comprar cartelas de remédio sem que o médico tenha prescrito? Por que a indústria não vende em doses unitárias? Como fazer para adequar o interesse do laboratório, do paciente e as limitações financeiras do Estado é o xis da questão” – Luiz Roberto Barradas Barata, Secretário de Saúde do Estado de São Paulo.

“As filas do SUS para marcação de consultas ou de procedimentos especializados são desonestas. Elas não estão submetidas a um sistema regulatório. È muito fácil furar essas filas com a ajuda de um político ou um conhecido. A exceção são as filas de transplantes, que são corretamente reguladas. É preciso ser transparente e fazer a gestão de todas as filas”. ” O SUS é uma política pública altamente inclusiva. É claro que ele tem problemas, mas é um sistema em construção. O gasto em saúde no Brasil corresponde a 8% do PIB. Os países da Europa gastam cerca de 10% – sendo que 80% desses gastos são do governo. È previso aumentar o gasto de saúde usando dinheiro público, e não privado. Na Espanha, quando alguém precisa fazer um exame e o sistema público de saúde não consegue realizá-lo, o governo tem de pagar o exame no sistema privado. Isso deveria acontecer no Brasil”, Gonzalo Venina Neto, superintendente corporativo do Hospital Sírio-Libanês.

“Assim como meus colegas aqui presentes, sou conta a criação de um novo imposto para financiar a saúde pública no Brasil. A questão é: falta de dinheiro e devemos tirá-lo de outro setor que compete pelos mesmos recursos. Além disso, há problemas de priorização no uso dos recursos de saúde. É preciso, antes de tudo, usar melhor aquilo que já temos”. “Um hipertenso que mora em São Paulo ou no Amazonas deve ter o mesmo tipo de acesso aos recursos do sistema de saúde. Isso não significa apenas ter acesso a exames ou a medicamentos, mas ser orientado sobre o uso adequado deles. Precisamos fazer uma fila transparente ou estaremos nos enganando por mais tempo. As filas não podem ter distinção entre nome e sobrenome, mas elas talvez sejam um sinal de que não dá para dar tudo a todos”, Marcos Bosi Ferraz, coordenador do Centro Paulista de Economia da Saúde, da Unifesp.

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