Quem quer adotar uma escola?

Revista Época -junho 2010-Como a Parceiros da Educação, uma associação de grandes empresários paulistas, está transformando 80 escolas públicas em modelos eficazes de ensino e gestão.Imagine uma escola pública, localizada na periferia pobre de São Paulo, que tenha um alto índice de desempenho dos alunos. Tão alto que já tenha superado, há dois anos, a meta de aprendizado de língua portuguesa proposta pelo Ministério da Educação no ensino fundamental – para 2022. Ou que, em matemática, eles tenham melhorado suas notas em 71% em um ano – três vezes mais do que a média do Estado. Nessa mesma escola, professores são treinados por entidades particulares, especializadas em educação, para corrigir falhas específicas de formação e ajustar técnicas de sala de aula. Esses mesmos professores também trabalham em um sistema de metas individuais: se cumpridas, ganham bônus salariais no final do ano letivo. Isso tudo acontece em um ambiente seguro, limpo, com salas de aula bem cuidadas, biblioteca parruda, laboratório de informática que funciona e quadras novinhas para a prática de esportes.

Sonho? Não. A Escola Estadual Luís Gonzaga Travassos da Rosa, na zona sul de São Paulo, é de verdade, feita de cimento, tijolo e dedicação à causa da educação pública. Ela é o primeiro futuro da Parceiros da Educação, uma associação criada em 2004 por grandes empresários que promove e monitora parcerias entre empresas e escolas da rede pública. Sem fins lucrativos. Hoje, 80 escolas são adotadas por empresários por meio da Parceiros, beneficiando 75 mil alunos do ensino fundamental e médio da rede pública de São Paulo. “A ideia é levar para a escola nossa experiência em administração e gestão”, diz o empresário Jair Ribeiro, que adotou a Travassos há seis anos e idealizou o projeto. “Nossa missão é tornar a escola pública modelo de eficiência.”

Confundador e presidente do Conselho da CPM Braxis, a maior empresa de serviços de tecnologia do Brasil, Ribeiro, de 49 anos, é mais do que um empresário eficiente. Tem aquela inquietude empreendedora que move os projetos sociais bem-sucedidos. Nos anos 80, trabalhou para o tradicional escritório de advocacia Pinheiro Neto. Fundou e dirigiu o banco Patrimônio e foi executivo do JP Morgan Chase, em Nova York. Também criou a Casa do Saber. Foi no final do ciclo em Nova York que ele conheceu o projeto do amigo Jayme Garfinkel, presidente do Conselho da Porto Seguro, que adotara uma escola pública na comunidade de Paraisópolis, na capital de São Paulo. Ele se encantou e percebeu, então, que era possível fazer algo para melhorar a educação brasileira. “O Ribeiro, empreendedor que é, fez o que eu não fui capaz: formatou a parceria para replicá-la em outras escolas e foi bater de porta em porta atrás dos empresários”, diz Garfinkel.

O principal argumento para convencer os empresários a assumir uma escola é o que faz a força do modelo: não se trata de assistencialismo nem de apenas pintar um muro ou fazer um depósito todo mês na conta da Associação de Pais e Mestres. É compromisso, não caridade. A Parceiros tem uma equipe pedagógica que, junto com a direção e coordenação das escolas, adota medidas com o objetivo de melhorar as notas dos alunos. Se for preciso fazer uma reforma no prédio, ela é feita, com fornecedores pagos diretamente pela empresa. Mas o que faz diferença é a intervenção pedagógica e administrativa nas escolas. Elas continuam públicas – recebem dinheiro e seguem as diretrizes da Secretaria Estadual -, mas sofrem uma injeção de Knowhow privad. “A Parceiros complementa o trabalho do Estado”, afirma Ana Maria Slugisnki, chefe do Departamento de Parcerias da Secretaria da Educação. Os empresários podem gastar entre R$ 70 mil e R$ 200 mil por ano com cada escola.

Funciona assim: logo que uma escola é adotada, a equipe da Parceiros se reúne com a direção, a coordenação e com os professores para identificar quais são as necessidades e as deficiências. Da falta de livros ao relacionamento dos funcionários. A partir do diagnóstico, é traçado um plano de ação, com metas e caminhos para chegar até elas. Cada escola tem o que é chamado de facilitador – em geral, um pedagogo, contratado pela Parceiros, que faz a ponte entre a empresa e a direção escolar. No final, se o empresário topar financiar, uma avaliação interna elaborada pela Cesgranrio é feita para medir a melhora no desempenho dos alunos.

Alguns empresários estipulam bônus para os professores que conseguem alcançar suas metas.

O resultado desse trabalho é de médio prazo. Nas escolas com mais de dois anos de parceria, os alunos de 1a a 4a série têm crescimento médio de aproveitamento de 21%. Em português, o salto chega a 97% entre os que acabaram de ser alfabetizados, na 1a série. Quando Ribeiro assumiu a Travassos, a escola tinha 1.300 alunos. Quase 100, entre a 6a a 8a séries, eram analfabetos funcionais. Em um ano, usando o laboratório de informática, que foi reformulado, e os programas de computador fornecidos pela própria secretaria, o analfabetismo foi eliminado da escola. De lá para cá, as notas dos alunos da Travassos entraram em ascensão em avaliações internas e externas. Pela Cesgranrio, a média da escola em português pulou de 52,6, em 2006, para 68.7, em 2008. Em matemática, no mesmo período, foi de 47,1 para 55,2.

Os diagnósticos e planos de ação são específicos para cada escola, mas a qualidade dos professores é a principal preocupação. “É o que mais faz diferença na nota do aluno”, afirma Lúcia Fávero, diretora da Parceiros. Como a equipe da Parceiros faz avaliações específicas, por classe, do desempenho dos alunos, é possível identificar o que avaliações padronizadas feitas pelo governo do Estado não medem: a eficiência individual dos professores. Para dar treinamentos específicos para professores, a associação contrata empresas especializadas em áreas do conhecimento como português e matemática. Os cursos são constantes, e a adesão é voluntária. Há quem resista. Meritocracia e qualidade do professor ainda são tabus nas redes públicas. Foi com desconfiança que Carmen Lúcia Papa, de 62 anos, viu a iniciativa da Parceiros. Aposentada e de volta à ativa depois de um período em casa, a professora de geografia estava acostumada a dar aula de um jeito. Custou a aceitar de que precisava aprimorá-lo. Aderiu ao programa em 2008. Conforme foi sendo treinada pelos educadores externos, Carmen percebeu que seus alunos aprendiam mais – e ela acabou superando a meta estipulada pela Parceiros. Ganhou um bônus salarial no final do ano. “Trabalhar com metas de desempenho motiva a mudança”, diz ela.

A formação de melhores professores não teria efeito se, paralelamente, não acontecesse um treinamento da direção e coordenação da escola. Na escola Francisco de Assis Reys, no bairro do Ipiranga, quem faz isso é a Dicico, uma das maiores redes varejistas de material de construção de São Paulo. Desde 2008, quando a empresa adotou a escola, seus diretores vão semanalmente até lá para fazer reuniões e ensinar a administrar pessoas, finanças, projetos. Todos os dias, eles respondem a dúvidas por e -mails ou telefone dos funcionários da escola. “Não adianta só colocar dinheiro, temos de pôr a mão na massa e formar pessoas”, diz Claudio Fortuna, um dos diretores da Dicico. Os resultados da escola em português e matemática já superam a média das escolas participantes da Parceiros. Para Ribeiro, fundador da Parceiros, ajudar a melhorar a educação é dever de toda a sociedade. Ele procura empresários para dobrar para 160 o número de escolas atendidas em 2010.

 

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