Aula cronometrada

Revista Veja -23-06-2010-pág.122 – Com um método já aplicado em países de bom ensino, o Brasil começa a investigar o dia a dia nas escolas. As avaliações oficiais para medir o nível do ensino no Brasil têm se prestado bem ao propósito de lançar luz sobre os grandes problemas da educação – mas não fornecem resposta a uma questão básica, que se faz necessária diante da sucessão de resultados tão ruins: por que, afinal, as aulas não funcionam? Muito já se fala disso com base em impressões e teoria, mas só agora o dia a dia de escolas brasileiras começa a ser descortinado por meio de um rigoroso método científico, tal como ocorre em países de melhor ensino. Munidos de cronômetros, os especialistas se plantam no fundo da sala não apenas para observar, mas também para registrar, sistematicamente, como o tempo de aula é despendido. Tais profissionais, em geral das próprias redes de ensino, já percorreram 400 escolas públicas no país, entre Minas Gerais, Pernambuco e Rio de Janeiro. Em Minas, primeiro estado a adotar o método, em 2009, os cronômetros expuseram um fato espantoso: com aulas monótonas baseadas na velha lousa, um terço do tempo se esvai com a indisciplina e a desatenção dos alunos. Equivale a 56 dias inteiros perdidos num só ano letivo.

Já está provado que a investigação contínua sobre o que acontece na sala de aula guarda relação direta com o progresso acadêmico. Ocorre, antes de tudo, porque tal acompanhamento permite mapear as boas práticas, nas quais os professores devem se mirar – e ainda escancara os problemas sob uma ótica bastante realista. Resume a especialista Maria Helena Guimarães: “Monitorar a sala de aula é um avanço, à medida que ajuda a entender, na minúcia, as razões para a ineficácia”. Não é de hoje que países da OCDE (organização que reúne os mais ricos) investem nessas incursões à escola. Os americanos chegam a filmar as aulas. O material é até submetido aos professores, que são confrontados com suas falhas e insucessos. Das visitas que fez a escolas no Estados Unidos, o pedagogo Doug Lemov depreendeu algo que a breve experiência brasileira já sinaliza: “Os professores perdem tempo demais com assuntos irrelevantes e se revelam incapazes de atrair a atenção de alunos repletos de estímulos e inseridos na era digital”.

Numa manifestação de flagrante corporativismo, os professores brasileiros chegaram a se insurgir contra a presença dos avaliadores dentro da sala de aula. Em Pernambuco, o sindicato rotulou a prática de “patrulhamento” e “repressão”. Note-se que são os próprios professores que preferem passar ao largo daquilo que a experiência – e agora as pesquisas – prova ser crucial: conhecer a fundo a sala de aula. Treinados pelo Banco Mundial, os técnicos já se puseram a colher informações valiosas. Afirma a secretária de educação do Rio de Janeiro, Claudia Costin: “Pode-se dizer que o cruzamento das avaliações oficiais com uma panorama tão detalhado da sala de aula revelará nossas fragilidades como nunca antes”. Nesse sentido, os cronômetros são um necessário passo para o Brasil deixar a zona do mau ensino.

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Uma resposta para Aula cronometrada

  1. Prof. Roosevel Santiago disse:

    Senhores,
    De forma absurda e totalmente desprovida de uma prova concreta, estamos vendo a jornalista analisar e criticar grosseiramente a atuação do Professor em sala de aula. Gente, é preciso vivenciar, sentir na pele, envolver-se, participar de forma efetiva e não simplesmente usar do poder da escrita e da facilidade em usar as palavras do jeito e maneira que quiser para denegrir uma classe que há muito tempo é marginalizada em nosso país. Não somos respeitados em sala, em salário e em alternativas para melhoria do conhecimento (atualização). Pois, desafio os que dizem conhecer a nossa classe, na atual conjutura, a passar apenas 20h em uma sala de aula da Rede Pública, salvo raríssimas exceções. Os pais, na sua grande maioria, transferem a obrigação de educar os filhos, para os Professores e, se não bastassem, lutamos também, contra todo tipo de ofertas para que haja o chamado desvio de conduta, seja na porta da escola ou via internet. Portanto, para concluir, desejo que, num futuro bem próximo, as Faculdades apresentem os candidatos a Professor. Sinceramente, não vejo com bons olhos candidatos ao cargo de Professor de escola Pública. É lamentável, muito lamentável! Com respeito ao trabalho jornalístico da profissional, mas, com indignação, registro o meu repúdio pela forma como a matéria foi apresentada. Um cronômetro jamais definirá a capacidade profissional de um Professor.

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