Discutir para não calar

Fonte: Revista Época-7-06-2010 – pág. 62 – As ameaças à liberdade de expressão na América do Sul são debatidas em fórum em São Paulo

Antes de ocupar a Presidência da Bolívia, entre 2003  e 2005, Carlos Mesa trabalhava com jornalista e relatava os problemas de seu país, um dos mais pobres da América Latina, em rádios, jornais e TV. Na última terça-feira, ele participou, em São Paulo, do III Fórum de Liberdade de Imprensa e Democracia, promovido pelo Portal Imprensa, grupo especializado na cobertura de assuntos relativos aos meios de comunicação, e expôs as agruras dos jornalistas bolivianos no governo de seu sucessor, Evo Morales.

Principal palestrante do fórum, Mesa disse que os ataques à liberdade de imprensa na Bolívia não chegaram ao mesmo estágio da Venezuela, onde o governo do presidente Hugo Chávez cassou a concessão de emissoras de televisão para calar vozes críticas. Mas chamou a atenção para os atos de hostilidade do governo Morales com o objetivo de “neutralizar a imprensa”. “Num evento recente, o presidente Evo Morales chamou um jornalista ao palco e o constrangeu, dizendo que a reportagem escrita por ele estava errada”, disse Mesa.

No fórum, Mesa destacou a importância dos avanços tecnológicos na resistência a tentativas de cerceamento da liberdade de expressão por parte de governos autoritários. “O Estado tentará frear a liberdade, mas não vai conseguir porque as tecnologias e a internet estão à frente do que os mecanismos de censura tentam impor”, disse Mesa. Ele manifestou também a crença de que a cultura de liberdade e de democracia está mais enraizada nas novas gerações. “Existe uma ruptura grande entre uma geração e outra, e a definição de liberdade está nas mãos de uma geração que entende esses conceitos de forma diferente. Minha impressão é que a força da democracia está muito arraigada na geração jovem, que tem uma lógica diferente, menos política e mais aberta a essa ideia”.

Outros participantes do fórum fizeram relato sobre as hostilidades de governos contra órgãos de imprensa em países da América do Sul. Na Argentina, o governo da presidente Cristina Kirchner promoveu uma devassa fiscal no grupo de comunicação Clarín, o maior do país, com o objetivo de intimidá-lo e silenciar uma linha crítica. O jornalista Ariel Palácios, correspondente do Jornal O Estado de S. Paulo em Buenos Aires, contou uma história que mostra o ânimo beligerante de Cristina e seu marido, Néstor Kirchner, em relação à imprensa. Palácios, que havia entrevistado Néstor Kirchner como candidato, ligou para ele após eleito para uma nova entrevista. Ouviu a seguinte resposta de seu assessor: “Estamos indo bem, agora não precisamos da imprensa. Não precisamos de vocês agora.” Néstor e Cristina Kirchner nunca deram entrevistas coletivas como presidentes e gostam de alardear que dispensam a mediação da imprensa na relação com a sociedade.

No Brasil, o principal problema enfrentado pelos órgãos de imprensa são as decisões da Justiça que representam atos de censura. O jornalista Fernão Lara de Mesquita, acionista de O Estado de S. Paulo, que há mais de 300 dias é impedido de publicar reportagens sobre uma investigação da Polícia Federal que envolve um filho do senador José Sarney (PMDB-AP), lembrou que a democracia anda junto com a liberdade de imprensa: “A principal função da imprensa é contar para os representados o que seus representantes estão fazendo”.

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