Sobra talento, falta experiência

Fonte: Revista IstoÉ-2-06-2010-pág.83- Crianças e adolescentes brilhantes em suas áreas de atuação começam a se destacar no mundo do trabalho. Segundo especialistas, isso não é saudável

Em Nova York, uma menina de 12 anos escreve livros sobre escrita criativa, rascunha poesias nas horas de folga e participa de conferências ao lado de personalidades como o empresário Bill Gates e o cineasta James Cameron. No Himalaia, um garoto da Califórnia, de 13 anos, entrou para a história como pessoa mais jovem a alcançar o cume do Everest, no dia 22 de maio. Em Chicago, uma blogueira de moda de 14 anos rouba o lugar na primeira fila de editoras do quilate de Anna Wintour (leia-se “O Diabo Veste Prada), nos mais importantes desfiles das semanas de moda. Enquanto isso, em São Paulo, um cartunista também de 14 anos, começou a assinar na semana passada charges políticas de um grande jornal. Não é de hoje que grande talentos não esperam a idade adulta para transbordar. É o caso do músico Wolfgang Amadeus Mozart, que começou a compor aos 5 anos. Mas, atualmente, essas pequenas mentes brilhantes, como podemos constatar nesses exemplos, têm a possibilidade de ver seu talento amplificado pelos meios de comunicação. E a capacidade incomum que possuem começa a ganhar contornos de trabalho sério, próprios do mundo adulto. Tanto que essas crianças vêm dividindo espaço com gente grande. Atentos a esse fenômeno, os especialistas têm se perguntado seria isso saudável?

A resposta para essa pergunta é: não. Apesar de o acesso cada vez mais fácil à informação possibilitar o surgimento de experts juvenis nas mais diferentes áreas, ainda não se descobriu como ensinar maturidade. “Só com a experiência se constrói a maturidade e uma pessoa jovem sempre vai precisar do suporte de um adulto enquanto está formando a dela”, afirma o educador Sidnei Oliveira, especialista em conflito de gerações e autor do recém-lançado “Geração Y”. “É até perigoso pensar que só porque uma criança demonstra brilhantismo em alguma área está madura para outros aspectos da vida.” Para Oliveira, é normal que a nova geração manifeste cada vez mais cedo seus talentos, já que está superestimulada pelos meios de comunicação. Assim como tenha mais facilidade de divulgar suas atividades, graças à tecnologia. Mas isso não significa que ela esteja madura para assumir posições em qualquer áreas. “Maturidade não tem nada a ver com habilidade”, sentencia.

Há, inclusive, questões físicas a clamar pela desaceleração desse processo. “Algumas atividades requerem um amadurecimento neurológico. O cérebro simplesmente não está preparado para tudo enquanto não atinge certo nível”, diz a professora de filosofia da ciência da Universidade de São Paulo (USP), Zélia Ramozzi. Uma criança, por exemplo, pode aprender facilmente a dirigir um carro, mas não tem noção do perigo que ele representa para as pessoas que passam na frente dela. Em áreas em que se demandam imaginação e criatividade, porém, como música e desenho, é natural que essas habilidades sejam manifestadas já na infância. E elas devem ser incentivadas. Mas apoio à vocação precoce não deve se transformar em pressão para o sucesso.

Os pais da mais famosa blogeira mirim de moda do mundo, a americana Tavi Gevinson, 14 anos de idade e três de carreira, só souberam das atividades da adolescente depois que ela lhes pediu autorização para conceder uma entrevista ao jornal americano “The New York Times”, há dois anos. Com o visual de quem assaltou o guarda-roupa da avó, a menina profere palestras, escreve para a incensada revista “Harper’s Bazaar”,  e é queridinha de estilistas como Marc Jacobs. Em entrevistas, os pais demonsram preocupação com a filha e dizem que não se importariam se ela abandnasse o blog.

O paulista João Montanaro, 14 anos, começou a desenhar aos 6, incentivado pelo pai, que adorava histórias em quadrinhos. Depois de conseguir inserir as tiras em alguns veículos, realizou o sonho de ser contratado como chargista de um jornal de grande circulação. “Coloquei os desenhos debaixo do braço e bati de porta em porta”, diz. O adolescente tem total apoio da família. “A ideia para a charge vem sempre dele, não interfiro na criação, mas sou a voz da experiência. Ás vezes questiono alguma informação”, diz o pai, Mário Barbosa, que afirma ter só duas preocupações: com o que o filho passa para as pessoas através dos desenhos e se o menino está feliz”. Barbosa está certo. Os educadores ressaltam que esta geração precisa de apoio para não se perder em meio a tantas possibilidades. Assim, nem elas nem o mundo desperdiçarão esses grandes talentos.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: