Pedagógica ou sensacionalista?

Revista IstoÉ – 2-06-2010-pág.86 – É a questão que se coloca diante da nova exposição de corpos humanos inaugurada em São Paulo

No ensino fundamental, as aulas de anatomia sempre funcionaram como um divisor de águas. É nesse primeiro contato com órgãos, músculos e ossos, através de livros de ciência, esqueletos de resina e pedaços de órgãos em vidros com formol, que os alunos se fascinam pelo corpo humano a ponto de seguir carreira na área de biológicas ou, pelo contrário, formam a convicção de que querem investir em outro ramo. A mostra “Corpos – A Exposição”, em cartaz até 8 de agosto na Oca, no Parque do Ibirapuera, em São Paulo, pode ser encarada como uma aula de anatomia extrema. Nela, o visitante é tomado por um encantamento infantil ou pelo desejo de irromper porta afora diante dos 20 corpos e 250 órgãos de verdade espalhados ao longo de sete mil metros quadrados. São cadáveres dissecados e preservados a partir das mais avançadas técnicas desenvolvidas por pesquisadores chineses em parceria com Roy Glover, professor emérito de anatomia e biologia celular da Universidade de Michigan (EUA) e diretor da mostra.

Dividida em nove setores, como “Esqueletos e suas 100 Juntas”, “Sistema Muscular” e “Sistema Nervoso”, a mostra se propõe a ser educativa. Além de visualizar ao vivo e em cores o que estamos acostumados a ver nos livros didáticos, é possível comparar o aspecto de um órgão normal com um tomado pelo câncer, por exemplo. “Os corpos estão preservados em nível celualar, demonstrando com perfeição a complexidade de ossos, músculos, nervos, órgãos e vasos sanguíneos”, explica Glover. Mas tanto realismo – que para alguns beira o sensacionalismo – mexe com os espectadores. Nem todos têm estômago para ver o que está exposto. “É comum ver gente passando mal, com queda de pressão e ânsia de vômito”, relata o soldado do Corpo de Bombeiros Fernandos dos Santos Silva. “Na segunda-feira 24, uma menina de 15 anos desmaiou.”

A origem dos cadáveres também é um foco de controvérsias. O grupo de corpos e espécimes foi adquirido pela Premier Exhibitions, empresa que prepara as peças e organiza as exposições, de uma universidade chinesa por US$ 25 milhões (R$ 46 milhões) – eles não divulgam o faturamento da mostra. Na China, quando o morto é indigente, seu corpo é enviado para as escolas de medicina ou destinado para fins lucrativos. Segundo os organizadores, todas as mortes foram naturais. Mas, em Nova York, a Premier foi processada pela procuradoria por não conseguir provar a origem dos cadáveres. Havia a suspeita de que poderiam ser de presos executados. A empresa firmou um acordo com a procuradoria de que, para obter novos corpos, a identidade da pessoa, causa da morte e autorização para exibição teriam de ser fornecidas.

Ainda assim, o sucesso de público no mundo (a mostra passou pelos EUA e pela Europa e foi vista por mais de 15 milhões de pessoas) é um indicador da boa aceitação da exposição. No Brasil, 300 mil pessoas deverão vê-la e os estudantes formam um contingente expressivo. Antes mesmo da abertura oficial, na sexta-feira 21, 40 mil alunos dos três níveis de ensino haviam agendado visitas através de suas instituições escolares. Há três anos, outra exposição nos mesmos moldes atraiu 450 mil pessoas, das quais quase 20% provenientes de escolas. O diferencial deste ano é que os corpos são exibidos em posições de movimento e praticando esportes. Foi exatamente isso que despertou o interesse do professor de educação física da Fundação de Ensino e Pesquisa de Itajubá, em Minas Gerais, Marcos Olivas, que agendou para junho uma excursão com 40 universitário. “Nossos estudantes estão acostumados a visualizar os movimentos através de figuras. Agora, terão a chance de ver tudo em terceira dimensão”, diz ele.

A reação dos estudantes varia conforme a faixa etária. “No ensino médio eles têm uma postura mais séria, estão pensando no vestibular e entendem melhor os sistemas do corpo”, diz a professora Ana Barra, que leciona ciências para crianças e biologia para adolescentes. “Os mais novos ficam surpresos, fazem piadas, mas registram o que veem e isso ajuda muito em sala de aula.” Na terça-feira 25, ela acompanhava uma turma do sexto ano do ensino fundamental. Caio Filipe Bonifácio Sousa, 13 anos, era um dos mais empolgados e curiosos. Ao ser apresentado para o sistema reprodutivo feminino, ele perguntou à monitora: “Por que as mulheres têm TPM? Suas colegas Letícia Giúdice, 13, e Helena Almeida, 15, estavam impressionadas com o que viam. “É muito nojento!”, disse Letícia, com a concordância de Helena. Ainda assim, a curiosidade falava mais alto e elas não deixavam de espiar nada. A pequena Isabele Anhaia, 9 anos, aluna do quarto ano, não desconcentrou um minuto. “É muito pequenino, uma miniatura de gente”, comentou, de olhos, arregalados, diante de um feto.

Diretor-Geral do colégio Pueri Domus, em São Paulo, Luis Antonio Laurelli acredita que o aprendizado vai além da anatomia. “A mostra promove uma reflexão de valores”, diz ele. “O aluno percebe que somos todos iguais, e isso nos ensina a ser menos preconceituosos. Além disso, ver um pulmão preto faz a gente questionar o fumo, e dar de cara com um feto de 15 semanas faz a gente pensar na questão do aborto”. É uma oportunidade de aprendermos um pouco mais sobre nós mesmos.

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