Os gênios das feiras

Fonte: Revista Época – 24-05-2010-pág.89 -O Brasil deu um salto em prêmios nas competições de ciências. Infelizmente, isso não significa que o ensino melhorou

A notícia encheu de orgulho país, professores, diretores e escolas. Nunca o Brasil foi tão premiado na Feira Internacional de Ciências e Engenharia (Intel Isef), considerada a Copa do Mundo das feiras de ciências, que reúne trabalhos de alunos do mundo inteiro. Na semana passada, nos Estados Unidos, foram 1.611 gartoso, de 59 países. Os 26 estudantes brasileiros levaram 20 prêmios, incluindo dois inéditos primeiros lugares. Tirando os anfitriões, o Brasil só não levou mais medalhas que a China (com 22) – mas os asiáticos não ganharam nenhuma medalha de ouro.

Os projetos de pesquisa apresentados na feira são de altíssimo nível. Em média, quase 25% deles geram patentes. Outra parte vira tese de mestrado e doutorado. A evolução do Brasil, que participa há 17 anos, foi notória. Em 2009 e 2008, com o mesmo número de projetos apresentados, o país levou cinco medalhas em um ano e três em outro, respectivamente. A brasileira Tamara Gedankien, de 17 anos, da Nova Escola Judaica, de São Paulo, ficou em primeiro lugar em Ciências Sociais. Ela aplicou uma metodologia de ensino numa classe experimental de alunos de sua escola para comprovar que eles aprendem melhor matemática quando ensinados com elementos de sua própria cultura.

A excelente participação brasileira, no entanto, não pode ser interpretada como um reflexo da melhoria do ensino de ciências ou da metologia científica (como conduzir uma pesquisa, apresentar dados em relatórios, defender teses) nas salas de aula. Em São Paulo, uma avaliação da rede estadual mostrou, em 2009, que metade dos alunos conclui o ensino médio sem entender o que é ciência. Quando foi comparado com outros 57 países, em 2007, pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Brasil ficou em 52 lugar em desempenho nessa área.

“Há cada vez mais casos de sucesso entre as escolas que se dedicam a ensinar a montar projetos de pesquisa, mas ainda são ações isoladas”, afirma Roseli Lopes, coordenadora da Feira Brasileira de Ciência e Tecnologia, que seleciona os brasileiros para a Isef.

Um deles é o do Liceu Estadual de Maracanaú, no Ceará. A grade curricular foi alterada para que a carga horária dedicada aos projetos fosse maior. Seus professores são estimulados a participar de feiras. Neste ano, o projeto do aluno João David, de 17 anos, com inseticidas naturais contra o mosquito da dengue, levou três prêmios. Maria das Graças Sales, orientadora de João, participa, em média, de seis feiras por ano, nacionais e internacionais. Virou especialista. “Outras escolas me chamam para dar palestras sobre como preparar projetos”, diz ela.

Treinar o aluno para fazer uma apresentação perfeita faz parte dessa preparação. Antes de embarcar para os Estados Unidos, os brasileiros passaram três dias em São Paulo, recebendo orientações de como se comportar diante de um jurado. Suas apresentações são filmadas e vistas junto com especialistas, para corrigir imperfeições. “Melhoramos muito por causa desse treinamento”, diz Hélio Brochier, coordenador da Mostra Internacional de Ciência e Tecnologia, que também manda trabalhos para a Isef. A grande façanha da equipe campeã é mostrar aos outros que, com esforço, todos são capazes de aprender como o mundo funciona. Bom seria se esse espírito se espalhasse pelas salas de aula de todo o país.

Confira alguns projetos de alunos premiados no epoca.com.br.

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