O Brasil do desemprego zero

Artigo de Gilberto Dimenstein – Folha de S. Paulo- 30-05-2010- pág.C/12 – Cerca de 70% das maiores empresas brasileiras se ressentem da falta de mão de obra qualificada

A GE (General Electric) divulgou na quinta-feira que o Rio, São Paulo e São José dos Campos são finalistas na disputa para abrigar seu centro de desenvolvimento de soluções tecnológicas. Será feito um investimento inicial de quase R$ 300 milhões, o que considero mais relevante para nosso futuro do que a construção de estádios para a Copa do Mundo ou para a Olimpíada.

Um dos fatores mais importantes para a escolha da cidade é haver nela gente habilitada para trabalhar. Na primeira tacada, serão necessários 300 engenheiros.

Avoluntaram-se na semana passada notícias que reforçam a percepção de que a ansiedade da GE é generalizada e está cada vez maior. Mas dessa ansiedade também se colhem boas notícias, a começar do fato de que, para alguns trabalhadores, o desemprego é zero. Essa é uma das explicações, além da crise na Europa e nos Estados Unidos, para a volta de 400 mil brasileiros, entre os quais altos executivos.

A Fundação Dom Cabral divulgou um relatório segundo o qual cerca de 70% das maiores empresas brasileiras se ressentem da falta de mão de obra qualificada, chegando a importar trabalhadores e a suspender projetos. Na Petrobras e na Vale, a busca por profissionais competentes beira o desespero.

Em pucas palavras, isso significa uma barreira tão importante para o crescimento quanto a falta de estradas ou de energia. Por isso, os dois principais candidatos à Presidência, José Serra e Dilma Rousseff, querem se apresentar como líderes em realizações do ensino técnico de nível médio e superior, um consenso absolutamente novo no país.

Uma recente descoberta revela que a disseminação da educação profissional pode ser menos difícil do que se imaginava.

Em estudo encomendado pelo Instituto Votorantim, a Fundação Getulio Vargas informou que o mercado de trabalho não faz distinção entre os formados em cursos presenciais e os formados em cursos a distância (muito mais baratos).

Essa descoberta contraria o senso comum e reforça o que se sabia sobre o ensino superior a distância: os estudantes virtuais demonstram melhor desempenho nas notas. Isso prova que, desde que bem preparadas, as aulas funcionam, sobretudo para gente motivada e madura.

Antes praticamente restrita a escolas federais e ao chamado Sistema S (Senac e Senai), hoje a oferta, apesar de ainda incipiente, está cada vez mais diversa e conectada ao mercado de trabalho.

Quem tem diploma técnico de auxiliar de enfermagem pode se candidatar ao curso de “cuidador de idoso”. O técnico de esporte e recreação pode monitorar atividades esportivas, com ênfase em integração comunitária e inclusão social.

No início do próximo ano, terá início um curso, também gratuito, para formar técnicos em multimídia.

Os três programas têm 400 horas, garantem diplomas certificados pelo governo (Centro Paula Souza) e são ministrados por gente do mercado. Os técnicos em recreação têm como orientador ninguém menos do que o ex-jogador de futebol Raí, que se especializou em projetos comunitários. Os alunos de multimídia são orientados por profissionais da TV Globo.

A Nextel já se uniu a uma agência de publicidade (Click) para oferecer formação de webdesign.

Há cursos voltados à tecnologia de informação em que o aluno sai fluente em inglês. Esse profissional bilíngue é disputado, sem exagero, a tapa. No ensino básico público, os alunos não conseguem lidar nem com o português. Nem eles nem os professores. Apenas 18% dos candidatos a professor de português foram aprovados em concurso feito na rede estadual de São Paulo.

Esse número é até grande em comparação com o de aprovados para dar aulas de matemática (11%) e de física (7%).

Não é exatamente fácil imaginar como se consegue gerar um ensino profissionalizante no país sem professores de matemática e de física.

PS – O tamanho do problema ficou absurdamente visível na semana passada. Como não se preencheram as vagas para o concurso de São Paulo, o governo se viu obrigado a chamar professores temporários, muitos dos quais, como revelam os testes, não sabem o que ensinam. Traduzindo a explicação oficial: é melhor para o aluno alguma aula do que nenhuma aula.

Calcule então o que é gerar trabalhadores que saibam falar inglês.

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