“Teoria é mais fácil”

Revista Época – 26-04-2010 – página 117 – Entrevista Doug Lemov – Mas é a prática de sala de aula que faz diferença na vida dos alunos diz o educador

Ao dar esta entrevista a Època, o educador Doug Lemov dirigia seu carro às 5 e meia da manhã (horário de Nova York), em uma viagem que duraria mais três horas – o tempo entre sua casa e a escola onde passaria o dia treinando professores. Lemov não usa livros nem segue teorias pedagógicas nos treinamentos que dá em todo o país. Seu material são técnicas de como ensinar, criadas pelos melhores professores dos Estados unidos, que ele estudou e gravou em vídeos. “Toda vez que passo o primeiro vídeo eles se transformam em canibais, sedentos por mais e mais”, diz. A seguir, ele conta por que é tão difícil ensinar a ensinar.

Época – O professor aprende a ser bom na faculade?

Doug Lemov – Não. Está claro que as escolas de educação se preocupam em ensinar teorias da educação e dão pouca atenção para os estudos sobre aprendizado. Uma razão é que nos Estados Unidos o trabalho de professor não é bem remunerado e a carreira não tem prestígio. Acho que os acadêmicos tentam melhorar isso agregando alto capital cultural, criando ricas e fascinantes discussões intelectuais sobre teorias, filosofia, sociologia. Isso tem mais prestígio do que se debruçar em ações do dia a dia da sala de aula, que, no fim, é o que determina o sucesso do professor.

Época – Por que é tão difícil ensinar a ensinar?

Lemov – Porque é assustador. Eu sei disso porque dou treinamento para professores. Não sou um excelente professor. Sou apenas o.k., não excelente. E de repente tenho de ficar em pé diante de uma sala cheia de bons professores e falar sobre o que é ensinar durante um dia inteiro. Seria muito mais fácil falar sobre as grandes teorias da educação, pois as pessoas me escutariam e achariam que eu seria capaz de fazer o que estou ensinando. A maior parte dos professores das faculdades não tem experiência de sala de aula.

Época – Seus alunos são professores iniciantes?

Lemov – Todo professor precisa de treinamento, não só os iniciantes ou os de pior desempenho. Na verdade, sob a perspectiva da escola, o que mais deve receber investimento é o melhor professor. Muito dos bons professores desistem da carreira, e um dos motivos é que, quando você é bom, é abandonado, deixado para caminhar com as próprias pernas. E os melhores são os que mais querem melhorar e ter o melhor desempenho o tempo todo.

Época – Se a faculdade não prepara bons professores, a carreira é pouco atrativa, e para mudar isso demora, como formar bons professores já?

Lemov – os programas de treinamento de professores que já estão dando aula são mais importantes que os cursos de pedagogia. Porque o ensinamento é replicado para todos. Os melhores programas de treinamento acontecem dentro das escolas. Elas sabem que não há tempo para esperar reformas educacionais. Dar a oportunidade para professores ensinarem outros professores a ensinar pode ser o início da mudança.

Época – Os melhores nascem assim?

Lemov – Não acredito nisso. Pense nos jogadores de futebol brasileiros, tão talentosos. É claro que não existe uma mágica biológica que os faça nascer todos nesse país. O treinamento de jogadores feito aí é diferente do resto do mundo. Se estudarmos esses talentos, se treinarmos forte – eo treinamento dos brasileiros é bastante duro – é possível se tornar um. Bem, talvez não um Pelé, mas um jogador excelente, com certeza.

 

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