Construtivismo e destrutivismo

Artigo de Claudio de Moura Castro – Revista Veja -21-04-2010 – pág.24 – “O construtivismo é uma hipótese teórica atraente e que pode ser útil na sala de aula. Mas, nos seus desdobramentos espúrios, vira uma cruzada religiosa, claramente nefasta ao ensino”.

Minha missão é árdua: quero desvencilhar o construtivismo dos seus discípulos mais exaltados, culpados de transformar uma ideia interessante em seita fundamentalista. O construtivismo busca explicar como as pessoas aprendem. Prega que o processo educativo não é uma sequência de pílulas que os alunos engolem e decoram. É necessário que eles construam em suas mentes os arcabouços mentais que permitem entender o assunto em pauta. Essa visão leva à preocupação legítima de criar os contextos, metáforas, histórias e situações que facilitem aos alunos “construir” seu conhecimento. Infelizmente, o construtivismo borbulha com interpretações variadas, algumas espúrias e grosseiras, Vejo quatro tipos de equívoco.

O primeiro engano é pensar que teria o monopólio da verdade – aliás, qual das versões do construtivismo? As hipóteses de Piaget e Vigotsky coexistem com o pensamento criativo de muitos outros educadores e psicológos. Dividir o mundo entre os iluminados e os infiéis jamais é uma boa ideia.

O segundo erro é achar que todo o aprendizado requer os andaimes mentais rescritos pelo construtivismo. Sem maiores elaborações intelectuais, aprendemos ortografia, tabuadas e o significado de palavras.

O terceiro é aceitar uma teoria científica como verdadeira por conta da palavra de algum guru. Em toda ciência respeitável, as teorias são apenas um ponto de partida, uma explicação possível para algum fenômeno do mundo real. Só passam a ser aceitas quando, ao cabo de observações rigorosas, encontram correspondência com os fatos.

Einstein disse que a luz fazia curva. Bela e ambiciosa hipótese! Mas só virou teoria aceita quando um eclipse em Sobral, no Ceará, permitiu observar a curvatura de um facho luminoso. O construtivismo não escapa dessa sina. Ou passa no teste empírico ou vai para o cemitério da ciência – de resto, lotado de teorias lindas.

Não obstante, muitos construtivistas acham que a teoria se basta em si. De fato, não a defendem com números. Obviamente, nem tudo se mede com números. Mas, como na educação temos boas medidas do que os alunos aprenderam, não há desculpas para poupar essa teoria da tortura do teste empírico, imposto às demais. Por isso, temos o direito de duvidar do construtivismo, quando fica só na teoria. Mas o que é pior: outros testaram as ideias construtivistas, não encontrando uma correspondência robusta com os fatos. Por exemplo, orientações construtivistas de alfabetizar não obtiveram bons resultados em pesquisas metodologicamente à prova de bala.

O quarto erro, de graves consequ~encias, é supor que, como cada um aprende do seu jeito, os materiais de ensino precisam se moldar infinitamente, segundo cada aluno e o seu mundinho. Portanto, o professor deve criar seus materiais, sendo rejeitados os livros e manuais padronizados e que explicam, passo a passo, o que aluno deve fazer.

Desde a Revolução Industrial, sabemos que cada tarefa deve ser distribuída a quem pode fazer melhor. Assim é feito um automóvel e tudo o mais que sai das fábricas. Na educação, também é assim. Os materiais detalhados são amplamentes superiores às improvisações de professores sem tempo e sem preparo.

De fato, centenas de pesquisas rigorosas mostram as vantagens dos materiais estruturados ou planificados no detalhe. Seus supostos males são pura invencionice de seitas locais. Quem nega essas conclusões precisa mostrar erros metodológicos nas pesquisas. Ou admitir que não acredita em ciência.

Aliás, nada há no construtivismo que se oponha a materiais detalhados. Entre os construtivistas americanos, muitos acreditam ser impossível aplicar o método sem manuais passo a passo.

Em suma, o construtivismo é uma hipótese teórica atraente e que pode ser útil na sala de aula. Mas, nos seus desdobramentos espúrios, vira uma cruzada religiosa, claramente nefasta ao ensino.

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One Response to Construtivismo e destrutivismo

  1. Adriana Bandeira disse:

    Escrevo motivada pelo artigo Salto no escuro, na edição de 12 de maio da Revista Veja.
    Sabemos, todos nós, que a escola agoniza no início do século XXI em meio a sistemas falidos. Mas para criticar esses sistemas precisamos, sine qua non, ter conhecimento. Se alguém considera algo ruim, tem que apresentar uma ideia melhor. Uma pessoa pode não entender ou não gostar do construtivismo, mas não pode julgá-lo de forma preconceituosa. Fazê-lo é tão errado quanto considerar óbvio que algo que atinja a 60% das escolas atinja igualmente a 60% dos alunos. Uma análise estatística capaz de arrepiar mesmo quem não seja matemático.
    Para começar, nenhuma criança brasileira estuda sob qualquer dogma, seja teológico, já que nossa escola é laica, tampouco político ou filosófico. Nossa lei de ensino é, além de democrática, baseada numa filosofia construtivista, numa concepção de como vemos e assimilamos a realidade.
    A concepção construtivista não é uma teoria, “mas um referencial onde os professores podem se guiar para solucionar determinadas situações.”
    “A concepção construtivista é utilizada como instrumento de análise educativa e uma ferramenta útil para tomar decisões inteligentes, inerentes ao planejamento, aplicação e avaliação do ensino.”
    A concepção construtivista da realidade nasceu de um movimento artístico russo, em 1920, com o lançamento do Manifesto Construtivista, onde os irmãos arquitetos Naum Gabo e Antoine Prevsner afirmavam, entre outras coisas, que a realidade é espaço, tempo e construção. Esta forma de pensar a realidade, onde cada elemento tinha um significado e uma função, espalhou-se pela Europa e chegou à Educação. A filosofia construtivista se alicerçou em Jean Piaget que acreditava que os conhecimentos são elaborados espontaneamente pela criança, de acordo com o estágio de desenvolvimento em que esta se encontra. A visão particular e egocêntrica que as crianças mantêm sobre o mundo vai, progressivamente, aproximando-se da concepção dos adultos, socializada e objetiva.
    A concepção construtivista da aprendizagem e do ensino partiu do fato de que a escola deveria tornar acessíveis aos seus alunos aspectos da cultura que são fundamentais para seu desenvolvimento pessoal e social. Esta concepção leva em conta que a aprendizagem é fruto de uma construção pessoal do conhecimento a partir do momento em que o conteúdo a ser aprendido é incorporado de modo que, mais tarde, possa ser utilizado pelo aluno na sua vida.
    O construtivismo não chegou ao Brasil “com falhas e chiados das ondas curtas”, mas através do trabalho da internacionalmente respeitada psicolinguista Emilia Ferreiro, nos anos de 1980. Seu trabalho e sua força foram tão grandes que influenciaram as normas do governo para a educação, expressas nos Parâmetros Curriculares Nacionais. As obras de Emilia não apresentam nenhum método pedagógico, mas revelam os processos de aprendizado das crianças, levando a conclusões que puseram em questão os métodos tradicionais de ensino da leitura e da escrita. Emilia Ferreiro e Jean Piaget passaram a ser referências dentro da filosofia construtivista.
    Tanto as descobertas de Piaget como as de Emilia Ferreiro levaram à conclusão do papel ativo das crianças no aprendizado. Elas constroem o próprio conhecimento.
    O professor que concebe sua carreira sob uma filosofia tem consciência e expertise do seu trabalho, ou seja, sabe o que ensina, por que e para que ensina os conteúdos pré-estabelecidos. Tem absoluta consciência da bagagem cultural herdada através de gerações e gerações e sabe extrair dessa bagagem o melhor para oferecer ao seu aluno, sem jamais extrair o que é relevante. Mais do que professar o que sabe, o professor é um mestre na arte em fazer do aluno o sujeito do seu próprio aprendizado e responsável, sim, em descobrir caminhos para chegarem ao objetivo juntos.
    No mundo da educação há uma grande discordância sobre quais são os objetivos do ensino, assim como que métodos seriam os mais apropriados. O construtivismo foi a base da reforma educacional em muitos países da Europa e América, mas sabemos que é preciso aprimorá-lo.
    Pesquisas internacionais revelam que é preciso não só aprimorar o construtivismo, mas novas formas de educar precisam nascer. A própria Emilia Ferrero alertou sobre os rumos que o construtivismo passou a tomar para alguns grupos radicais.
    Nos Estados Unidos – que vale aqui lembrar, ocupa o 13º lugar no ranking do IDH de 2009 – há constantes debates entre os educadores. Em nenhum momento pensa-se em abandonar o construtivismo, mas em modelá-lo diante das necessidades que o mundo dita.
    Hoje, temos a consciência, através dos estudos neurolinguísticos, que nossos alunos aprendem de forma diferente, têm estilo, ritmo e necessidades diferentes em aprender. Por que, então, os professores ensinam da mesma maneira sempre?
    Se há diferenças na forma de aprender, o professor deve ter, além de inteligência para tentar resolver os problemas que surgirem, um grau de sensibilidade suficiente para querer oferecer diferentes experiências em sala de aula, para diminuir a frustração e elevar a autoestima, fortalecendo a autoconfiança. Deve descobrir as chaves certas que abrem as portas para atingir a eficiência.
    A chave do sucesso educacional é a motivação. A motivação é a mola propulsora para o sucesso do aluno, pois só aprendemos alguma coisa se isso nos der acesso a algo que desejamos. Uma vez motivados, o trabalho do professor com seus alunos será facilitado.
    Como professores, devemos estar prontos para o desafio de criar métodos variados de ensino e estar abertos para o debate.
    Estudantes não se sentem motivados pelo jeito frio de se ensinar. Ficar horas diante dos alunos explicando conceitos ou fórmulas também já não mais satisfaz. Muitas vezes, a própria estrutura da escola pode limitar as soluções para um problema. Uma sala multimídia, hoje, é tão importante quanto um laboratório.
    Professores reclamam constantemente que alunos não assimilam a contento o conteúdo ministrado. Julgam os alunos incapazes de contextualizar assuntos. Cabe ao professor, então, mostrar os possíveis caminhos para o sucesso. O professor que souber utilizar as ferramentas de que dispõe fará a diferença não só na sala de aula, mas para uma nova ordem educacional.

    Fontes:
    Walden University Conference, 2005
    Ranking IDH 2009
    BECKER, Fernando. Da ação à operação: o caminho da aprendizagem; Jean Piaget e Paulo
    Freire. Tese (Doutorado) – Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, 1984.
    Saber ou ignorância: Piaget e a questão do conhecimento na escola pública. Psicologia
    -USP, São Paulo, v. 1, n. 1, p. 77-87, 1990.
    Epistemologia subjacente ao trabalho docente. Porto Alegre: FACED/UFRGS, 1992.
    BECKER, Fernando. O que é construtivismo? Revista de Educação AEC, Brasília, v. 21, n.
    83, p. 7-15, abr./jun. 1992.
    Ensino e construção do conhecimento; o processo de abstração reflexionante. Educação e
    Realidade, Porto Alegre, v. 18, n. 1, jan./jun. 1993.
    FERREIRO, Emilia e TEBEROSKY Ana, Psicogênese da Língua Escrita, 1979
    KESSELRING, Thomas. Jean Piaget Munchen: Beck, 1981.
    MACEDO, Lino de. O construtivismo e sua função educacional. Educação e Realidade,
    Porto Alegre, v. 18, n. 1, p. 25-31,jan./jun. 1993.
    PERRET-CLERMONT, Anne-Nelly. Linteraction sociale comme espace de pensée. (A paraitre
    dans la Revue Antropos).
    A construção da inteligência pela interação social Lisboa Sociocultur, 1978.
    PIAGET, Jean. (1959) Aprendizagem e conhecimento. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1975.
    C nascimento da inteligência na criança. São Paulo: Zahar.
    A formação do simbolo na criança. São Paulo: Zahar.
    RAMOZZI-CHIAROTTINO, Zélia Psicologia e epistemologia genética de Jean Piaget. São
    Paulo: EPU, 1988.
    Em busca do sentido da obra de Jean Piaget. São Paulo: Ática, 1984.
    RANGEL, Ana Cristina Souza. A educação matemática e a construção do número pela
    criança; uma experiência na primeira série em diferentes contextos sócio-econômicos.
    Dissertação (Mestrado) -PPG/FACED/UFRGS, 1987.
    SLOMP, Paulo Francisco. Conceitualização da leitura e escrita por adultos
    não-alfabetizados Dissertação (Mestrado) – PPG/FACED/UFRGS, 1990.
    TONIN-AGRANIONIH, Neila. C ensino e a aprendizagem matemática: uma intervenção
    construtivista. Dissertação (Mestrado) – FACED/UFRGS, 1991.

    Professora Adriana Bandeira
    Bacharel e licenciada em Letras e Literaturas de Língua Vernácula pela UFRJ

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