Alconsciência

Artigo de Gilberto Dimenstein – Folha de S. Paulo -25-04-2010- pág.C/14 – O fato é que esse caminho costuma dar certo quando se faz da juventude uma fonte de soluções

Está prevista para este fim de semana uma festa diferente: trata-se de uma balada movida a rap e a funk em que será proibida a entrada de bebida alcoólica e de drogas. Se alguém acender um “baseado”, vai levar uma advertência; se insistir, a festa vai terminar para todos. As rígidas normas não foram estipuladas por adultos, mas pelos próprios jovens de Heliópolis, a maior favela de São Paulo.

É a primeira vez que jovens de comunidades populares recebem treinamento profissional em comunicação para alertar seus colegas sobre os perigos das substâncias psicoativas – o álcool, em particular. O trabalho, desenvolvido por dois anos, focou da publicidade ao jornalismo.

Estimular bandas de funk, hip-hop, samba e pagode a produzir letras que despertem o interesse dos jovens pela saúde faz parte desse projeto de marketing. As baladas são gratuitas e já atraíram os talentos locais, o que significa sucesso na certa.

Todos sabemos que o consumo abusivo de álcool e a juventude constituem uma combinação altamente explisva. Por isso um projeto como esse, se for bem-sucedido, tende a ganhar escala nacional.

Em gestação há três meses, o projeto partiu da ideia de que os adultos não encontrariam linguagem mais apropriada para falar sobre álcool com os adolescentes. Mas os jovens teriam a limitação de não conhecer técnicas de marketing, publicidade e jornalismo. Assim se delineava a ideia de criar agentes comunitários de comunicação.

Habituada a fazer as mais diversas parcerias, com nomes que vão de Antonio Candido a Ruy Ohtake, a comunidade de Heliópolis obteve apoio da iniciativa privada (AmBev) para oferecer formação aos jovens. Ali se desenvolve o conceito de bairro-educador.

O objetivo é conscientizar o jovem e, ao mesmo tempo, os donos de bares, estimulando-os a cumprir a lei e a não vender bebidas a menores de 18 anos. Parte da campanha será focada também nos pais.

O que se busca é prevenir o problema. Se já é difícil cuidar de jovens abastados, que têm acesso a recursos médicos e a apoio psicológico, imagine a arduidade da tarefa na periferia, carente de tudo e cheia de famílias desestruturadas.

A Universidade Federal de São Paulo desenvolve um programa que trata, ao mesmo tempo, o filho e os pais, na suposição de que a família desinformada mais atrapalha do que ajuda.

Para se dedicarem diariamente ao projeto, os agentes comunitários de comunicação recebem uma bolsa mensal e devem estar matriculados na escola.

Recebem aulas de redação e aprendem técnicas de montagem de sites, além de design gráfico para a produção de cartazes. Há também aulas sobre saúde, que os levam a entender como as substâncias psicoativas alterem o cérebro.

Também vão aprender a criar programas de rádio e televisão, além de peças de publicidade. A rádio Heliópolis transformou-se numa espécie de Redação-escola.

São apoiados por publicitários de uma agência profissional (Repense) na produção dos slogans e no planejamento de marketing.

Entendeu-se que uma das maneiras mais eficazes de falar com o jovem seria o olho no olho. Decidiu-se, portanto, promover uma balada por mês, com as bandas locais, que, depois, farão uma gravação num estúdio profissional, com direito a videoclipe. Adolescentes serão convidados a mostrar suas produções em artes plásticas, literatura (poesia e conto), vídeos, grafite e moda. Já há, no bairro, uma confecção com um ateliê-escola.

Um dos pontos da estratégia de marketing é a premiação, com produtos, dos bares que aderirem à campanha. Cada dono de bar premiado será apresentado como uma espécie de herói local em peças publicitárias e nos programas.

Ainda não se sabe se tudo isso vai funcionar. Está sendo realizada uma pesquisa qualitativa para avaliar a percepção dos jovens sobre o abuso do álcool. Daqui a dois anos, será feita uma nova medição, que vai oferecer pistas sobre o desempenho da experiência.

Independentemente do resultado, o projeto está conectando mais comunidades populares do eixo Rio-São Paulo, como Paraisópolis.

A experiência de Heliópolis pode até dar errado, mas, se isso ocorrer, não terá sido por falhas técnicas. O fato é que esse caminho costuma dar certo quando se faz da juventude uma fonte de soluções.

Basta lembrar que o instigante nome do projeto. Alconsciência, foi inventado pelos próprios jovens, depois de ouvirem seus colegas.

PS – Para conhecer a dimensão da tragédia que envolve o álcool e a juventude, coloquei uma série de artigos no meu site (www.dimenstein.com.br).

 

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: