Professores encerram greve esvaziada

Matéria com entrevista do Professor José Maria Cancelliero – presidente do Centro do Professorado Paulista (CPP) – em 9-04-2010-pág.A/18 – Educação – Em assembleia no vão livre do Masp, docentes da rede estadual de São Paulo decidem suspender a paralisação, que completou ontem um mês. O movimento termina sem nenhuma reivindicação atendida, uma semana após José Serra deixar o governo

Em uma assembleia esvaziada, marcada por tumulto e bate-bocas, professores da rede estadual de São Paulo decidiram ontem (8/4) suspender a greve da categoria, iniciada no dia 8 de março. Os professores não tivgeram nenhuma de suas reivindicações atendidas pelo governo. A paralisação termina uma semana depois de José Serra (PSDB) ter deixado o cargo de governador para concorrer à Presidência.

Segundo a Secretaria de Estado da Educação, a greve não chegou a afetar nem 1% da rede. Em nota divulgada, ontem, a pasta chamou o movimento de “tentativa de greve” e reafirmou que não aceita mudar programas criticados pelos sindicatos. Para o sindicato, mais de 60% da categoria chegou a aderir à paralisação, mas nesta semana começou a haver um “refluxo”, com docentes voltando às salas de aula.

O movimento foi acusado de ter sido organizado para interferir no âmbito eleitoral. Após a manifestação realizada próxima ao Palácio do Governo, o PSDB entrou com representação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) contra o Sindicato dos Professores do Ensino Oficial de São Paulo (Apeoesp) e sua presidente, Maria Izabel Noronha. No documento, o partido alegou que o ato teve conotação eleitoral e que recursos sindicais podem ter sido usados para campanha antecipada.

Em nota, a Apeoesp diz que “a intolerância do governo em não negociar acabou desanimando a categoria”. Também foram citados motivos financeiros. “Os professores não conseguem ficar mais de um mês parados por questões financeiras”, afirmou Maria Izabel. Os docentes em greve tiveram o ponto cortado e não recebem pelos dias que não foram trabalhar.

Juntos, a Apeoesp, o Centro do Professorado Paulista (CPP) e o Sindicato que reúne os diretores e coordenadores de escolas (Udemo) pediam reajuste salarial de 34,3%, o fim da prova de promoção por mérito e da prova para os professores temporários. Líderes das associações foram recebidos na quarta-feira (7/4) pelo secretário da Educação, Paulo Renato de Souza, mas não houve nenhuma oferta por parte do governo.

Divisão – A assembleia de ontem reuniu na Avenida Paulista um número menor do que as anteriores. Segundo estimativa da Polícia Militar, mil pessoas participaram do ato, que bloqueou por duas horas o tráfego no sentido Consolação da avenida. Na passeata de três semanas atrás, a PM estimou que os manifestantes eram 12 mil. Então, os professores aprovaram por unanimidade a manutenção da paralisação.

Desta vez, os professores se mostraram divididos. Apesar de a maioria ter votado pela suspensão da greve, um grupo de dissidentes, apoiado por um carro de som improvisado, vaiou os dirigentes sindicais que defenderam a  suspensão da greve.

Houve empurra-empurra e, ao fim da votação, foram jogados ovos contra a presidente da Apeoesp. Quando os dirigentes sindicais tentavam deixar o carro de som, um grupo de dissidentes cercou a saída e foram lançadas duas bombas caseiras de baixo impacto. Ninguém se feriu.

A presidente da Apeoesp foi vaiada em vários momentos, como quando afirmou que “a greve já é gloriosa”. Ela também disse que, apesar de não ter havido negociações, os professores “venceram politicamente”.

Enquanto ela falava, um grupo gritava “Fora Bebel”, como ela é conhecida. Maria Izabel, porém, tratou o fato com naturalidade. “Faz parte da democracia ter correntes contra”, afirmou enquanto descia do carro de som.

O resultado não agradou a muitos professores. “Passamos um mês lutando porque achamos as reivindicações justas, o governo não cedeu em nada e agora nos dizem para acabar com a greve?”, contestava o professor de História Erlon Chaves, de Itapecerica da Serra, que disse ter levado suas caixas de som “porque não deixam a gente subir lá (no carro de som oficial da assembleia)”. “Não sou ligado a ninguém, sou independente. Na verdade, sou só um professor indignado”, garantiu.

Segundo a Apeoesp, a ideia de “manter a mobilização”. Os professores vão realizar manifestações em frente à secretaria quando houver reuniões. O resultado da negociação com o governo será levado a uma nova assembleia da categoria, no dia 7 de maio, na Praça da República.

O resultado de ontem não agradou completamente nem os que votaram pela suspensão da paralisação. “É um pouco decepcionante, mas acho que o movimento está caminhando para frente, não dá para dizer que é um fracasso”, afirmou o professor José Antonio Fernosele Júnior, de Guarulhos.

Para o presidente do CPP, José Maria Cancelliero, foi “uma conquista” da categoria ter seus representantes recebidos pelo secretário, mesmo em greve.

Cronologia – Junho de 2008 – só a reposição – Greve de 22 dias motivada por alterações na contratação de temporários termina com acordo entre o governo e a Apeoesp que garantiu apenas a reposição salarial dos dias de paralisação.

Maio de 2004 – Reajuste baixo – Paralisação de duas semanas por reajuste salarial termina com proposta de aumento de 1,5% pelo governo. Os professores pediam 24,9%.

Junho de 2000- Sem reajuste – Paralisação que durou 43 dias e foi marcada por confronto com a PM na Avenida Paulista que deixou 38 pessoas feridas termina sem que o governo de Mário Covas aprovasse reajuste salarial. A Apeoesp pedia aumento de 54,7%. Ao final, a adesão dos docentes era de apenas 9,5%.

Greve durou um mês e terminou sem conquistas – 5/3 – O movimento é aprovado por 10 mil docentes; 8/3 – Greve inicia com baixa adesão; 12/3- Avenida Paulista é bloqueada; 26/3- Manifestantes e PM entram em confronto e 8/4 – Após um mês, movimento é encerrado sem ter as reivindicações atendidas.

Tensão expõe disputa interna de sindicato – O clima de tensão entre os próprios professores apareceu onte (8/4) de forma muito mais acentuada que em qualquer outra assembleia deste ano. Antes, a tensão parecia ser apenas entre os professores e governo.

A discussão política principal que se ouvia durante a manifestação saiu do âmbito nacional – sobre o ex-governador José Serra, do PSDB, e da ex-ministra Dilma Rousseff, do PT – e passou para as alas do movimento sindical. Em um sindicato grande, como a Apeoesp, não faltam disputas internas. Os gritos de “Fora Bebel” – como é conhecida a presidente da entidade, Maria Izabel Noronha – eram de pessoas ligadas ao Partido da Causa Operária (PCO), diziam uns. “É o pessoal da (entidade sindical) Conlutas”, comentavam outros. A Apeoesp é ligada a CUT e Maria Izabel é filiada ao PT. Os vínculos entre o PT, Bebel e a Apeoesp são visíveis por toda parte. Há duas semanas, por exemplo, ela foi uma das convidadas de honra de abertura do 2o Congresso da Mulher Metalúrgica, organizado pelo Sindicato dos Metalúrgicos do ABC , ao lado de Lula e da pré-candidata Dilma Rousseff, do PT.

 

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