O melhor prêmio de Nizan Guanaes

Artigo de Gilberto Dimenstein-publicado neste domingo -(4/4)- na Folha de São Paulo -pág.C/10 -Em um projto para uma escola na periferia, estampa-se o anúncio de um caminho sem volta para o Brasil

O publicitário Nizan Guanaes se considera um ser inrremdiavelmente competitivo – uma atitude que lhe trouxe, em intensidade semelhante, alguns dos mais importantes prêmios de publicidade, assim como admiradores e desafetos.

Há algum tempo, ele colocou seu prazer competitivo num segmento que lhe era totalmente estranho, cujo cenário nada tinha a ver com a sofisticação asséptica das agências de publicidade: uma escola pública da periferia de São Paulo (Campo Limpo, na zona sul), tão longe de Nova York, onde hoje ele mora.

Apesar do dinheiro investido, ele descobriu que é muito mais fácil e rápido levar os mais cobiçados prêmios inventando anúncios do que melhorar uma escola pública. Na semana passada, porém, ele ganhou um troféu. Humilde, na tinha a ver com a luminosidade de um Leão de Ouro de Cannes. Pelos meus critérios, foi o seu melhor.

O troféu é o resultado da escola que ele apoia (Francisco Brasiliense Fusco). O colégio continua, para padrões civilizados, ruim. Só que, segundo o índice de qualidade do governo estadual, o Idesp, conseguiu superar 40% da meta fixada. Isso o coloca 80% acima da média do Estado e, se mantiver esse ritmo, logo estará muito mais próximo de Nova York do que de São Paulo.

A ação pode ser vista como um lance de marketing social associado ao prazer do desafio, em meio à onda de responsabilidade empresarial. Isso é apenas um detalhe. O essencial é que, naquele projeto de periferia, estampa-se o anúncio de um caminho sem volta para o Brasil.

Ele integra um grupo de 52 empresários, batizado de “Parceiros da Educação”, que aoia a gestão de 80 escolas públicas e é assessorado por pedagogos. O desafio provocou neles uma sensação permanente de insatisfação, talvez porque as metas não virem realidade com a rapidez de seus negócios. Na semana passada, não foi Nizan que comemorou.

Foi montada uma tabela do desempenho de algumas daqueles escolas envolvidas no projeto. O resultado, no geral, ainda deixa muito a desejar, se comparado com nações mais educadas. A novidade é que houve saltos que superaram em 100% a meta estabelecida para o ano, segundo o índice estadual, que mistura notas com evasão.

Certamente, essa experiência é muito difícil de ser universalizada. Indica, porém, que vamos aprendendo, na área social, a nos guiar pelo mérito traduzido em números – esse é um caminho sem volta.

Qualquer governante terá hoje de se acostumar com esse aprendizado – algo que, até pouco tempo, quase não havia no país, centrado em dados econômicos como desemprego ou inflação.

Estamos começando, lentamente, a aprender a ler e traduzir esses números; fora disso, são apenas palpites e sensações.

Se analisarmos a gestão Serra pelo indicador de educação, ela é, apesar de todos os avanços, ruim. É um terrível cartão de vista para um partido há tanto tempo no poder. Tal fato foi ressaltado nacionalmente pela ruidosa greve dos professores.

Podemos (e devemos) criticar os exageros corporativos do sindicato dos professores, sua aversão ao mérito e sua vinculações partidárias. Há, contudo, um descontentamento legítimo: o massacre diário contra o magistério. Não será nada fácil atrair talentos com um salário inicial baixo, desproporcional para quem tem um diploma universitário. Como se faz qualquer coisa de excelência sem atrair talentos? Ou será que um Nizan ou seus colegas empresariais de experiência educacional pagam pouco a seus funcionários mais talentosos?

Serra pode ser acusado de não saber dialogar com os professores. Mas o ponto mais inovador e polêmico de sua gestão foram medidas como pagamento de bônus por desempenho e a concessão de aumentos maiores condicionados a provas, além de submeter os docentes a exames para medir seu conhecimento. Na semana passada, mais de 40 mil professores, por causa do exame, tiveram aumento de 25%. No final, pode-se ganhar mais de R% 6 mil.

Ele partiu do pressuposto (comprovado, diga-se) de que aumentos generalizados não impactariam a qualidade de ensino, e optou pelo choque do mérito, gerando uma gigantesca reação.

O cobertor é curto, e a situação está longe de ser resolvida; estamos, afinal, lidando com o gargalo de talentos, que é geral na sociedade e, obviamente, muito pior onde os salários são baixos e as condições de trabalho, violentas.

A novidade é que toda essa conversa já não está mais restrita a governos e sindicatos. A sociedade está cada vez mais atenta às metas e disposta a cobrar resultados. O troféu da periferia de Nizan é apenas o anúncio de como estamos representando o país.

 

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