Sindicalismo eleitoral

Fonte:Revista Época-29-03-2010-pág.48 – Ás vésperas de Serra virar candidato, entidades ligadas ao PT fazem greves e exigem reajustes que elevariam em R$ 8, 7 bilhões os gastos do governo paulista

A julgar pelo comportamento dos sindicalistas que controlam as entidades de classe do funcionalismo público paulista, o calendário eleitoral de São Paulo deveria incorporar também uma onde de greves. Isso é o que vem ocorrendo sistematicamente a cada dois anos desde que o tucano Mário Covas (1930-2001) assumiu o governo do Estado, em janeiro de 1995. Agora, com o governador José Serra pronto para deixar o Palácio dos Bandeirantes e entrar na disputa pela Presidência, a onda de greves e protestos volta a se levantar.

Os sindicatos dos servidores de três áreas vitais do governo, Educação, Saúde e Segurança, deflagaram paralisações ou operações-padrão a poucos dias do prazo legal para que Serra deixe o cargo de governador para concorrer ao Palácio do Planalto. Eles reivindicam aumentos salariais, protestam contra o que chamam de “falta de diálogo” por parte do governo tucano e passaram a seguir Serra em eventos públicos, quase sempre inaugurações de obras.

As paralisações poderiam ser entendidas como parte do jogo democrático e do histórico conflito entre patrões e empregados. Há, no entanto, componentes nas greves que permitem identificar também interesses eleitorais nos movimentos: as reivindicações pedem reajustes salariais além do limite razoável para o governo; os sindicatos e suas centrais são ligados a partidos que fazem oposição ao PSDB; alguns de seus dirigentes são filiados ao PT; a adesão das categorias ao movimento é baixa; e as manifestações extrapolam os limites da liberdade de expressão e descambam para agressões.

Conforme um levantamento feito pela Secretaria de Gestão do Estado, a soma das reivindicações dos sindicatos geraria um impacto de R$ 8,7 bilhões por ano na folha de pagamento do funcionalismo paulista (R$ 3,5 bilhões na Educação, R$ 2,5 bilhões na Segurança, R$ 1,5 bilhão na Saúde e R$ 1,2 bilhão de auxílio-alimentação). Imediatamente, São Paulo passaria a descumprir a Lei de Responsabilidade Fiscal, que fixa o teto de gastos com o funcionalismo em 46,55% da receita corrente líquida. Atualmente, essa relação está em 42%. “A pauta dos sindicatos pede coisas impossíveis de ser cumpridas. Ainda assim, abrimos as negociações”, diz o secretário de Gestão, Sidney Beraldo.

O mais barulhento dos sindicatos é a Apeoesp, que representa os professores de São Paulo. Para conseguir um reajuste de 34%, eles atiram ovos e outros objetos em Serra e têm o hábito de parar a Avenida Paulista, uma das principais vias de São paulo, às sextas-feiras, dia em que o trânsito na cidade costuma ficar mais congestionado. Também querem o fim de um sistema que instituiu a meritocracia na carreira e prevê aumentos salariais para os professores conforme o cumprimento de metas. A adesão ao movimento, segundo Beraldo, não ultrapassa 5% da categoria. Na Saúde, área na qual o SindSaúde pleiteia 40% de aumento, esse índice é ainda menor. A Associação dos Delegados de Polícia, que está em operação-padrão, pressiona por um projeto de “reestruturação de carreiras”, que, na prática, elevaria os salários.

Mesmo que algumas reivindicações possam ser legítimas, a baixa adesão talvez se justifique pela opção política de alguns dirigentes sindicais. Na quinta-feira, Maria Izabel Azevedo Noronha, a Bebel, presidente da Apeoesp, filiada ao PT, dividiu um palanque com a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, a escolhida do presidente Lula para disputar sua sucessão.

As maiores entidades sindicais do país já decidiram apoiar Dilma. A CUT, vinculada ao PT, é uma aliada natural da ministra. A Força Sindical, ligada ao PDT, era adversária histórica da CUT, mas ganhou o Ministério do Trabalho e fará campanha para Dilma. A recém-criada União Geral dos Trabalhadores (UGT) chegou a debater de que lado ficar, mas também estará com Dilma. “Se vencer, Serra terá dificuldades para governar”, afirma o deputado Paulo Ferreira da Silva (PDT-SP), o Paulinho presidente da Força Sindical, central à qual está ligada a presidente da Associação dos Delegados de São Paulo, Marilda Pansonato Pinheiro. De acordo com Paulinho, que apoiou o governo tucanoFernando Henrique Cardoso, a flata de sintonia com Serra é antiga. “Quando o FHC escolheu o Serra como candidato à Presidência em 2002, nós mudamos”, diz ele. Em outubro de 2008, às vésperas das eleições para prefeito, Paulinho foi um dos líderes da greve dos policiais civis de São Paulo. Na ocasião, liderou uma marcha de policiais civis armados até o Palácio dos Bandeirantes que terminou em confronto com a Polícia Militar e por pouco não virou uma tragédia.

Pré-candidato ao governo de São paulo, o senador petista Aloizio Mercadante postou em seu Twitter, o miniblog da internet, uma mensagem de apoio aos movimentos, assim como o líder do PT na Assembleia paulista, Antonio Mentor. “Fizemos isso para informar a população. É um absurdo dizer que as greve são políticas. Elas seriam se os professores, por exemplo, ganhassem salários dignos e tivessem condições decentes de trabalho”, diz Mentor. Beraldo discorda: “Houve avanços na qualidade e aumentos reais. O único propósito é desgastar a imagem do governador José Serra“.

Com a proximidade das eleições, um grupo de sindicalistas se mobiliza na busca de dividendos eleitorais – à custa da oposição – e de benefícios imediatistas – à custa das empresas. Para além das disputas entre os partidos, naturais em períodos eleitorais, as greves que não aglutinam as categorias e servem para retórica política só desgastam a imagem dos sindicatos e de seus dirigentes, incrustados nas máquinas partidárias.

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