MUNDO-CÃO-secretário da Educação entra na Justiça contra o programa CQC

Artigo de J.R. Guzzo – Revista Veja -31-03-2010 – O prefeito Rubens Furlan, do PMDB, foi à Justiça para impedir que o CQC exibisse sua reportagem. O que incomodava o prefeito era que o público ficasse sabendo da história

… Uma contribuição impecável para o entendimento dessas realidades, e outras mais, acaba de ser oferecida ao público pelo programa Custe o que Custar, da Rede Bandeirantes, que na semana passada levou ao ar uma reportagem mostrando, do começo ao fim, o que aconteceu com um televisor com tela de LCD doado pela emissora à prefeitura de Baueri, nas vizinhanças de São Paulo. Foi o mais perfeito desastre, como é regra em doações feitas ao governo – mas, nesse caso, um desastre comprovado passo a passo, com imagens filmadas, declarações gravadas e todas as provas materiais com as quais um promotor público poderia sonhar ao oferecer uma denúncia. O televisor foi doado para utilização na rede escolar do município, no último mês de dezembro: na ocasião, o secretário municipal de Educação garantiu que seria imediatamente encaminhado a uma das escolas sob a sua responsabilidade. O que realmente aconteceu, ao fim e ao cabo, é que o aparelho passou praticamente esse tempo todo, de dezembro até meados de março, na casa de uma funcionária municipal.

Revelados os fatos o prefeito Rubens Furlan, do PMDB, poderia ter dito, como até veio a dizer, que não tem meios de controlar os atos de cada um dos 10 000 funcionários do município e que iria tomar as providências devidas. Em vez disso, foi à Justiça para impedir que o CQC exibisse sua reportagem – o que conseguiu por alguns dias. Ou seja: o que realmente incomodava o prefeito não era o fato de terem passado a mão no televisor da escola debaixo do nariz do secretário da Educação, de quem aliás é irmão, e sim que o público ficasse sabendo da história. Além disso, foi ao ar com uma penosa descarga de insultos, grosseiras e acusações ao programa, empregando o que antigamente se chamava palavreado “de carroceiro” e que hoje parece fazer parte da linguagem corrente no paço municipal de Baueri. O prefeito quis parecer indigando e valente; acabou sendo apenas cômico.

Sempre se pode dizer, quanto a essa história: “Barueri? Grande coisa”. Mas é uma grande coisa, sim. Na verdade é uma das maiores coisas que há por aí: o mundo-cão em que vivem tantos dos quase 6 000 municípios brasileiros, e do qual Barueri é uma amostra sem retoques. É, também, mais uma oportunidade para ver por que tanta gente, pelos quatro cantos da vida pública, sonha com o “controle social” sobre os meios de comunicação.

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